Por Você
Já passava das quatro horas da manhã e eu não consegui dormir.
Sabia que precisava, pois no dia seguinte tinha a apresentação do
meu trabalho de conclusão de curso, uma das partes mais importantes e
torturantes do ensino superior. Eu passara os últimos meses em um turbilhão de
emoções e ansiedade por conta desse trabalho, mas agora não parecia importar
mais. Cada vez que eu fechava os olhos, as imagens voltavam à minha cabeça, as
palavras soavam claras e pareciam rasgar partes da minha alma. Meus olhos se
enchiam de lágrimas que eu não conseguia – e nem queria mais – controlar.
Perguntava-me incessantemente o que eu fizera de errado. Por que
deveria ter uma razão, coisas assim simplesmente não acontecem do nada...
Mas ele apenas dissera que “não dava mais” e fizera as malas. Ele
nem se preocupara em me explicar o motivo, apontar meus erros, minha culpa por
não ser a esposa que ele esperava. Ele apenas fizera as malas em silêncio e
saíra pela porta.
E eu não conseguia parar de pensar nos bons momentos que nós
tivemos juntos. As risadas, os beijos, as noites apaixonadas no apartamento que
ele dividia com um amigo perto do campus... Por que aquilo havia acabado? O que
nós fizemos para esses sentimentos maravilhosos se dispersarem? Eu não fazia
ideia.
As lágrimas mais uma vez venceram e correram livres por meu rosto
corado, enquanto eu encarava o telefone, esperando, inutilmente, que ele
tocasse.
Ali estava eu, sempre forte, decidida, independente, agora acabada
por um homem que nem sequer merecia meu amor e minha dedicação. Eu teria feito
qualquer coisa por ele, era só pedir.
Como o amor pode nos destruir desse jeito? É quase como uma
doença, mais rápida e dolorida do que o pior tipo de câncer. Quem disse que é
um sentimento bom? Pode até ser prazeroso por um momento, mas, como uma droga,
faz você ficar viciado e sua abstinência causa dores e alucinações terríveis.
Eu tinha sido alguém forte, uma mulher independente, certa de suas
crenças e decisões, cheia de opiniões. Mas foi só conhecer... ele, e tudo
mudou. Agora eu estava aos prantos, depois de me humilhar e implorar que ele
ficasse, mesmo sabendo, lá no fundo, que ele não iria voltar, e que o modo como
eu estava agindo era completamente ridículo e irracional.
Mas nada mais importava. Por que o amor que ele sentiu por mim
nunca foi verdadeiro. Não tinha como ser, senão ele não teria me abandonado
desse jeito. Eu repito isso na minha cabeça e tento me convencer de que é
verdade, por que pensar que ele me amava e me fez sofrer do mesmo jeito é mil
vezes mais doloroso.
Ele precisa saber o que ele fez comigo. Precisa sentir a minha dor
ao perdê-lo, ele precisava saber que tudo de ruim que estava acontecendo comigo
era culpa dele.
Sabe, eu sempre fui uma pessoa rancorosa. Lembro-me de uma garota
com quem eu costumava brincar que uma vez arrancou, sem querer, a cabeça da
boneca nova que eu ganhara de natal. Anos depois, quando nos encontramos em um
restaurante, foi a primeira coisa que eu disse: “Ei, você lembra de quando você
arrancou a cabeça da minha boneca?”. Nunca a perdoei por isso, e tenho
realmente dificuldade com o perdão.
Por isso sei que nunca vou perdoá-lo por ter me
abandonado. E sei que vou fazer de tudo para ele se sentir o mais culpado
possível.
Levantei-me, as lágrimas ainda escorrendo e os soluços agora
incontroláveis, e peguei uma das muitas folhas de papel jogadas sobre a mesa de
jantar. Eram os textos que eu deveria estar estudando para a minha
apresentação, mas agora eles não significavam nada de importante.
Com uma das minhas canetas coloridas – eu tinha várias, a minha
favorita era a roxa, e foi essas que eu escolhi -, escrevi com letras floreadas
e caprichadas, na horizontal, em cima do texto digitado do meu trabalho, as
palavras que sempre dizíamos um para o outro: Por
você.
Deixei a folha em um lugar estratégico na mesa, para que ficasse
bem visível para qualquer um que entrasse pela sala, e segui para o quarto. O
nosso quarto. As gavetas estavam reviras e as roupas jaziam no chão, sinal da
pressa que ele estava ao pegar algumas peças e enfiar na mochila da academia.
Eu não me importei com a bagunça.
Peguei uma camiseta cinza surrada do primeiro ano da faculdade.
Ele já havia se formado, mas morria de saudades das aulas, da turma, dos bares
e das festas. Ás vezes eu pensava que ele só ficava por perto para continuar a
viver isso.
A camiseta tinha o cheiro dele, uma mistura de colônia masculina,
suor e cigarro. Para mim, era o melhor cheiro do mundo, inebriante, que me
fazia lembrar do sorriso dele na hora.
Mais lágrimas trasbordaram dos meus olhos, que a essa altura já
deviam estar inchados. Deixei a camiseta de lado e comecei a mexer em uma das
gavetas abertas. Era nossa gaveta de pijamas.
Nunca fomos aquele casal que tem tudo separado. Nossas gavetas
tinham sempre coisas dos dois, e essa não era diferente. Em meio a cuecas samba
canção e camisetões de dormir, achei a camisola branca e rendada – que tinha
custado uma fortuna – que eu usara apenas uma vez, cinco meses atrás, na nossa
lua de mel para Roma.
Vesti-a, por que era mesmo muito bonita e se moldava ao meu corpo
de um modo sensual e ao mesmo tempo inocente, como uma noiva deveria ser em sua
noite de núpcias.
Da mesma gaveta, tirei um revolver. Era pequeno, eu nem sabia
direito como maneja-lo, mas ele insistira em manter um em casa depois que o
apartamento de seu irmão e de sua cunhada tinha sido invadida e roubada. Era só
para o caso de emergências, ele dizia.
Bom, o caso era uma emergência.
Sentei-me na cama, as molas do colchão afundando sob meu peso.
Olhei em volta, para a bagunça que deveria ser o nosso quarto. Para a bagunça
que uma vez já fora minha vida.
Eu já tinha visto filmes de ação o suficiente para saber como
engatilhar uma arma, então o fiz e encostei o cano frio na minha têmpora.
Fechei os olhos e deixei uma última lágrima correr por meu rosto. Apertei o
gatilho.
Juliana Messina
quarta, 03 de outubro de 2012
A Peste
Estou na minha cama. Não consigo me mover. Na verdade, talvez até
consiga, mas teria que enfrentar uma longa sessão de degustação dos mais
variados tipos de dores nos mais variados tipos de lugares do corpo. E não
tenho nenhum bom motivo para me mover. Não que evitar movimentos me livre da
dor. Estou sentindo muita dor. Estou doente.
O médico me disse o que era, mas eu não entendi muito bem, assim
como quase todo mundo é incapaz de entender o que os médicos falam. Mas uma
coisa entendi. Para me curar o mais rápido possível, eu precisava ficar em
absoluto repouso. Bom, eu avisei que um homem como eu não pode ficar em
absoluto repouso. Ele me alertou do modo tipicamente delicado dos médicos que
se não repousasse agora por alguns dias, daqui a alguns dias iria repousar
eternamente em um caixão. Não tive escolha. Sou um homem muito importante. Ou
melhor, era um homem muito importante.
Já é o terceiro dia que estou totalmente imobilizado. E nesse
tempo de dor perene, pensei muito sobre minha vida. As velhinhas católicas já
diziam: Mente vazia, oficina do diabo. Só esqueciam-se de lembrar que o diabo
vive dentro de nós. O teto branco era o meu espelho e o encontro comigo mesmo
era inevitável. Não estava com nenhum medo específico, mas sim com aquele
receio geral que todos têm de olhar para trás e verificar se todo o seu esforço
te levou para o lugar que sempre sonhou. E foi nesta investigação interna
que surgiu a questão chave: eu era feliz?
Eu sou completo. Deixei os rastros do meu suor e sangue por todo o
caminho da minha vida para chegar onde estou. E estou no lugar que sempre
sonhei, estou no auge. Enquanto milhares se arrastam para sobreviver na mais
desprezível fome, eu vivo na fartura de tudo o que eu desejo. Enquanto milhares
morrerão na penumbra medíocre da inexistência, eu sou lembrado e adorado por
multidões desses mesmos milhares e serei imortal. Enquanto milhares cultivam
abismos de ódio e sofrimento, eu tenho ao meu lado pessoas que eu amo. Enquanto
milhares vivem infectados pela incompletude da ignorância, eu já descobri o meu
sentido de vida e atingi a completude. Enquanto milhares fracassam, eu tive
sucesso. Venci a vida, que eles dizem ser invencível. Mas são os fracos que
dizem isso, para justificar sua fraqueza. Eu sou forte. Eu sou um herói.
Eu sou completo. Mas não sou feliz. Não sou feliz porque não há
tal coisa chamada felicidade. Se a felicidade existe, ela instantaneamente se
acaba, e fica no passado. E o passado não existe. Quando temos sucesso,
morremos. Somos a ausência. E a ausência nos move. Minha doença me lembrou de
tudo isso, lembrou que não sou ninguém, e sempre serei ninguém, vulnerável a
qualquer doença. Ela me faz rir de toda a minha existência.
Não consigo respirar direito. Não consigo enxergar direito. Não
consigo pensar direito. Não consigo me mover. Estou com muita dor. Estou à
beira da morte. E nunca me senti tão bem. Tão vivo.
Pedro Tancini
terça, 02 de outubro de 2012
Pecadora
Não sou uma pessoa ruim, digo para mim mesma enquanto olho-me no espelho embaçado do banheiro do shopping center. Sou só o que o mundo fez de mim. Uma pecadora.
Mas hoje em dia, o que é pecado? Não necessariamente do ponto de vista religioso, mas pelo ponto de vista moral. Por que se formos falar sobre pecado de acordo com o catolicismo, por exemplo, comer presunto no café da manhã da sexta feira santa seria um terrível crime.
Meus pensamentos e ações remetem claramente ao mundo em que vivo, à realidade em que estou inserida. Meus pecados, meus crimes contra a moral, a maioria deles só em pensamento, são marcas de um tempo, de uma geração que deixou um monte de costumes para trás em virtude do conforto e da praticidade.
Pergunto-me, principalmente quando estou lendo um desses livros sobre sociedades distópicas que estão na moda, como eu agiria em uma situação de vida ou morte. Não de vida ou morte quando você é assaltado no ponto de ônibus vazio e tem que entregar seu celular para um cara te apontando uma faca ou uma arma – que depois você se pergunta se era de verdade ou não -, mas uma situação em que se tem a morte imposta a você, seja pela fome, pela doença, pelo governo... Você tem duas escolhas, morrer ou viver, e você é obrigado a se agarrar a qualquer coisa para conseguir continuar com vida.
Reviro os olhos para o meu reflexo, que estava me olhando carrancudo. Nunca iria sobreviver em uma situação difícil como aqueles personagens. Não quando não aguento nem os problemas normais e levianos que eu tenho, como pagar as contas e aturar um chefe sem noção me importunando o dia todo.
Passo a mão pelos cabelos um tanto desgrenhados e me dirijo à porta com a maçaneta torta do banheiro. Meu maior pecado é, na verdade, um que sempre, em qualquer época, sociedade e religião, foi mal visto: se eu enfrentasse uma situação de vida ou morte, eu escolheria a morte com um sorriso nos lábios.
Juliana Messina
segunda, 01 de outubro de 2012
O Camelo
Um camelo vagava perdido por dias em um gigantesco deserto. Estava quase morrendo de fome e de sede, já que o solo não podia ser mais arenoso, e o sol secava impiedosamente toda a mísera água de seu corpo.
Certo dia, quando estava no limiar da vida, o camelo avistou um rio caudaloso logo à sua frente. Reuniu suas últimas forças e conseguiu chegar à beira de toda aquela água. Avistou também uma grande pradaria às margens do rio, que poderia alimentá-lo por meses.
Demorou tanto para decidir se comia ou bebia primeiro que morreu de fome e sede.
Pedro Tancini
domingo, 30 de setembro de 2012
domingo, 30 de setembro de 2012
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