quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Reflexos de uma lua esquecida


1. Porque ela nos iluminava

Ele estava atrasado. Não que tivéssemos marcado algum horário, mas sempre nos encontrávamos neste lugar quando a lua já estava entorpecida pelo breu do céu. Eu escondia minhas mãos geladas embaixo de minhas roupas em uma tentativa de aliviar o tremor. Mas não conseguia. Porque não estava tremendo de frio, e sim de pavor. Era um pavor muito antigo, que crescera nas sombras da minha consciência, recentemente adubado pela felicidade que sentia quando via ele, e o receio de não poder vê-lo mais.

Naquele ponto, já tinha certeza que ele não viria, e aquele sentimento enfim mostrava completamente suas garras e dentes assustadores. Já podia morrer. Nada em minha vida nunca valeu minha existência. Eu era uma mulher feia, burra e antipática. Era o que eles diziam. E eu concordava com eles. Não podia ser mais fracassada. Só que se esqueceram de me perguntar se eu desejava o sucesso. Eu não me importava, sobrevivia como um animal, sem objetivos, sem desejos, sem lamentações. Isso antes de eu encontrar aquele homem.

No momento em que eu o conheci, ele passou a ser minha total existência. E as noites que passamos juntos. Comecei a apreciar a lua, porque ela nos iluminava. Passei a admirar as estrelas, porque às vezes ele falava sobre elas. Passei a gostar da minha vida, porque ele estava nela. Então, agora que ele nunca mais apareceria, já podia morrer. Simples assim. Não que isso me deixasse triste, aquelas últimas noites foram gigantescamente superiores às minhas expectativas sobre minha existência ridícula. Era mais do que suficiente. Se tudo acabasse ali, eu estaria satisfeita.

Mas ele apareceu. Estava vestindo sua máscara negra de ferro escurecido, como em todas as noites. Eu nunca havia visto o seu rosto, e a minha mente fazia o trabalho de imaginar todas as possibilidades possíveis de imagem.

- Oi, tudo bem? – minha voz saiu esganada, ainda afetada pelos vestígios de pavor.

Ele vestia uma roupa totalmente preta, com vários bolsos visíveis e escondidos para seus mais exóticos dispositivos e ferramentas. Era um ladrão. Eu preferia o chamar de gatuno, pois ladrão lembra aqueles moleques sujos que roubam as moedas das velhas e dos idiotas quando estes vão passear pela praça ou pela feira. Mas ele insistia que era tudo a mesma coisa, e eu realmente não me importava com o que quer que fosse que ele roubava. De qualquer forma, ele era um profissional, não porque treinou em alguma escola – se existe alguma escola de ladrões –, mas porque ele era muito bom no que fazia. Ninguém nunca o viu. Exceto eu.

- Tudo e você? – a voz dele é abafada, e misteriosa.

Eu comecei a rir. O nervosismo escorreu inteiramente. E voltou aquela sensação morna de estar ao seu lado. Ele não riu. Mas eu achava que estava sorrindo por detrás da máscara.

- Tudo.

Tive certeza. Ficamos imóveis por alguns segundos, um olhando para o outro. Eu estava me recordando de quando nos conhecemos. Foi puramente por acaso. Era a madrugada posterior ao velório da minha mãe. Eu não amava ninguém, e minha mãe não fora uma exceção. Mas mesmo assim tive que ficar um dia inteiro ao lado de um caixão tentando consolar pessoas que não mereciam ser consoladas, e sendo consolada por pessoas que sabiam que eu não precisava ser consolada. Enfim, foi um dia de exaustão, ao lado de pessoas que eu não gosto, porque odeio pessoas. Resolvi então, de madrugada, quando ninguém mais andava pelas ruas dessa cidadezinha covarde, caminhar ao ar livre e gelado e respirar. Quando passava por uma ruela particularmente mais escura, eu o vi. Até hoje não sei se ele apareceu de propósito para mim, ou se eu o peguei no flagra em mais um de seus roubos noturnos. A cena seguinte assistiu a nós dois estatelados: eu porque estava muito surpresa, e um pouco assustada; e ele talvez porque estivesse refletindo sobre o que fazer com a mulher que poderia denunciá-lo, ou porque estivesse pensando na melhor forma de se aproximar. Não sei quanto tempo se passou, mas ele tomou a iniciativa e soltou um “Oi, tudo bem?”. Eu, sem reação mais original, respondi “Tudo, e você?”. Ele respondeu meio soturno “Tudo”. Nas outras noites, essa introdução que não poderia ser mais deslocada à situação, passou a ser nosso código, que ironicamente indicava que tudo estava bem, e não havia perigos para nosso encontro. Depois disso, ele começou a andar para fora da cidade. Eu o segui, e não poderia ser diferente. Ele não falava nenhuma palavra enquanto andava, e tampouco eu, como se com medo de que qualquer som à parte dos sons da noite o espantasse como a um animal arisco.

Naquela noite eu vi o lago pela primeira vez. Quero dizer, eu já tinha o avistado algumas vezes, quando saía por uma pequena caminhada no bosque dos limites da cidade, mas nunca tinha o visto de verdade. Ele se sentou na margem úmida e olhou para a lua que nadava nas profundezas da água. Alguns poetas delirariam com uma mera visão daquela paisagem, mas eu só conseguia olhar para aquela máscara. Eu me sentei à sua frente. Um vento envolveu a cena e fez a lua submergida se transformar em um borrão de luz na superfície do lago que ondulava. Ele começou a contar uma história. Não consigo me recordar qual era a história, faz muito tempo que isso aconteceu.

Depois disso, passamos a nos encontrar todas as noites. Às vezes contava mais histórias, às vezes declarava poesias, às vezes simplesmente conversávamos como dois velhos amigos que se encontraram por acaso na rua. Nós evitávamos ao máximo falar sobre nossas vidas, eu porque não era nada interessante falar sobre meus fracassos, e ele porque eu nunca poderia saber sua identidade por detrás da máscara. Às vezes me perguntava se ele sabia o quão valiosas eram aquelas noites para mim. Às vezes me perguntava se elas eram valiosas para ele também.

Fomos até o lago. Ele se sentou. A lua estava cheia de novo. Fazia exatamente um mês desde nosso primeiro encontro. Eu também me sentei. Passei a mão na grama molhada.

- Quem é você? – me arrependi imediatamente.

Os sapos diminuíram seu coaxar. E um longo silêncio se passou.

- Não sou ninguém.

Um barulho de algo andando no bosque.

- Me desculpe.

Eu comecei a chorar. Não sei porque. Estava feliz, mas as lágrimas escorriam incessantes.

- Algum problema?

Aquele mesmo vento da primeira noite. Sequei as lágrimas.

- Nenhum. – estava sorrindo – Conte uma história, por favor.

Ele começou a contar a história. Era sobre um homem que se apaixonou pelo reflexo da lua na superfície do lago e se afogou tentando alcançá-lo. Sempre gostava das histórias dele. Menos aquela. Achei um tanto idiota. Eu me sentia idiota. E tudo aquilo parecia bem idiota. Não conhecia paixão, mas agora tinha certeza que estava apaixonada por aquele homem. E se estar apaixonado já é estar idiota, estar apaixonado por alguém que não é ninguém, é ridículo. Mais do que ridículo, era desastroso. Havia caído em uma grande armadilha: estava apaixonada pelo reflexo da lua. Conseguia ver duas alternativas. A primeira era pular no lago e, me afogar enquanto perseguia algo que não existe. A segunda era ficar apodrecendo eternamente enquanto admirava algo que sabia que nunca poderia alcançar. Uma pior que a outra.

- E pensar que se ele simplesmente olhasse para cima, perceberia que a imagem no lago era um mero reflexo, e não morreria por uma ilusão.

Sim, naquele momento eu vi a terceira alternativa. Tirar a máscara. Transformá-lo em alguém. Quebrar a ilusão. Para o bem, ou para o mal. Se para o mal, teria certeza que nunca mais iria poder vê-lo. Se para o bem, teria certeza que nunca mais iria querer vê-lo. De qualquer forma, poria um fim naquilo que já acabou no momento em que me apaixonei. O difícil seria conseguir tirar a máscara dele. Os sapos voltaram a coaxar. Ele me pegou de surpresa.

- Quer que eu tire a máscara?

Eu imediatamente respondi.

- Não.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

"I heard all things in the heaven and in the earth. I heard many things in hell"

Edgar Allan Poe

quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cheiro de Tabaco



Há vários anos, no Brasil, existia uma rica família cujo patriarca era um senhor de escravos dos mais poderosos. Naquela época, a abolição da escravatura já era um plano possível e palpável, apoiado pela Inglaterra, que detinha grandes interesses na mão-de-obra remunerada. Porém, este plano ia de encontro aos interesses dos próprios senhores de escravos, mesmo que ancorado por questões éticas. O patriarca, daquela era família, que era dono de uma vasta plantação de tabaco, era uma exceção. Apesar de ser um dos mais influentes coronéis, engajava-se na questão dos maus tratos aos negros, e fazia de tudo para preservar, ao limite do possível, a dignidade dos mesmos.

Certo dia, sua esposa, que, mesmo não sendo muito bonita era muito mais jovem que ele, engravidou. Com o espalhamento da notícia, a festa no casarão da família tornou-se uma das comemorações mais suntuosas dos anos passados, equivalendo-se aos grandes bailes europeus daquela época. Até os escravos foram contagiados por aquela aura de alegria que invadira todas as terras próximas. E enquanto, de dia, a alta burguesia rezava para os mais variados santos para garantir a saúde da criança e da mãe, os escravos, de noite, faziam suas mais confiáveis cerimônias afro-brasileiras para desejar a mesma saúde.

Meses depois, a parteira da família, uma escrava tão idosa e tão prezada pela família, que ao invés de trabalhar, só recebia cuidados dos seus senhores, preparava-se para tirar a criança da barriga da frágil mãe. Todos, sem exceção, confiavam inteiramente nas mãos daquela senhora quando se tratava de partos. Até os intelectuais mais estudados, que conheciam as avançadas técnicas de medicina da Europa, não deixavam de reconhecer o poder daquela mulher, que nunca deixou nenhuma criança ou mãe morrer. Ninguém entendia para quais deuses ou entidades ela faziam suas preces, mas todos de alguma forma acreditavam que aquilo funcionava. E naquela noite não foi diferente. Dois saudáveis meninos nasceram da pequena mulher. Gêmeos.

Quando o primeiro nasceu, foi recebido com gritinhos de alívio e choros soluçantes entusiasmados dos espectadores que ali estavam, e uma gargalhada espontânea de pura alegria do recém-pai. Porém, quando o segundo nasceu, foi recebido por gritinhos de pavor e por pela interrupção dos choros para uma expressão de susto, e talvez nojo. O pai de felicidade foi para surpresa, e depois para desespero, e depois para ira. A parteira estava atônita, e murmurou algo incompreensível para seus deuses. O segundo menino era mulato.

Algumas famílias das redondezas riam imaginando o adultério da mulher do poderosíssimo senhor de escravos com algum escravo qualquer. Outras famílias perguntavam-se que pacto aquelas pessoas haviam feito com o demônio, ou que pecados haviam cometido para que o diabo colocasse uma criança negra junto com o filho deles. Os escravos tinham certeza que era alguma maldição perigosa rogada por algum inimigo da família ou escravo ressentido. Era impossível nascer gêmeos de cores diferentes, e difícil de conceber que a cor do pecado se mesclasse ao sangue livre de gente digna.

A partir daquele dia, o coronel que antes inspirava os direitos humanos universais ao tratar com dignidade seus escravos, tornava-se mais um impiedoso carrasco, como todos os outros. Os escravos violaram seu próprio filho, e isso era demais para ele. Não conseguia imaginar uma sombra idêntica ao seu filho, que iria atormentar eternamente sua vida. Foi então que decidiu torná-los diferentes, e quebrar de uma vez a vergonha que seria essa irmandade. Quando o mulato ainda era um bebê, o senhor de escravos mandou cortar sua perna, para que assim ele nunca fosse comparado ao seu verdadeiro filho.

E assim foi. O menino teve sua perna cortada e foi jogado na senzala, para se tornar mais um escravo. Porém, nem mesmo os escravos aceitavam cuidar daquele menino, que o viam como a encarnação do caos e da loucura, ou alguma espécie de entidade brincalhona e igualmente perigosa. O menino só sobreviveu, pois a parteira se compadeceu, e decidiu criá-lo. Aquele caso, nunca deveria ser contado tanto para o filho branco como o mulato. Assim, aquela história de profanação seria esquecida pelo tempo, abafadas pela felicidade de um filho que herdaria milhares de hectares de plantações de tabaco, e o trabalho sem sentido do menino escravo que nunca seria ninguém. E o tempo realmente passou, e tudo aquilo foi sendo esquecido aos poucos enquanto os meninos cresciam, mesmo que as semelhanças físicas entre os dois à parte da cor gerassem um desconforto generalizado.

Entretanto, em uma certa ocasião, quando os meninos já estavam saindo da infância, a mãe da família adoeceu. Fraca como ela sempre foi, tinha certeza que a morte chegava para agarrá-la em seus braços gelados. Aquela mulher, ao contrário de seu marido, e contra quase todos, via o menino como seu filho, uma dádiva divina, e desejava o seu bem assim como desejava a seu filho branco. A permanência e sobrevivência do menino escravo foram possíveis em grande parte pelas suas ajudas à parteira, em sua criação. Foi então que, na semana de sua morte, ela reuniu o seu filho legítimo e, escondido, o menino escravo, e contou-lhes a verdade. A parteira era totalmente contra, mas era impossível negar esse último desejo a mãe daqueles meninos. Ela estava certa em estar contra.

A partir daquele dia, o menino mulato tornou-se a sombra de seu irmão. Não era inveja pela condição do menino branco, ou frustração por ser escravo. Era algo mais profundo. O menino mulato não se via como alguém, como uma existência própria. Ele via-se como um anexo, uma continuação, uma projeção do menino branco. Ele era portanto, a riqueza, o sucesso, e a felicidade. Não tinha sofrimento, pois projetava inteiramente sua existência no seu irmão, e bastava igualar-se o máximo possível a ele para a integração ser perfeita. Aquilo que o pai temia havia acontecido: o menino mulato tornou-se uma sombra, uma versão indigna sem consistência, sem sentido, inteiramente dependente, uma eterna assombração. Nos anos que se seguiram, o menino mulato se igualava cada vez mais a sua contraparte branca: as vozes tornaram-se idênticas, assim como o jeito de falar, as entonações, as gírias, o jeito de se mover, as expressões, as personalidades, os idéias, os sonhos. Nesta época, o mulato passou a usar trapos brancos e inclusive um pano branco na cabeça para tentar imitar a cor de seu irmão, e a improvisar uma perna de pau para andar como o irmão. Mas não era suficiente. Ainda havia esses dois obstáculos que os distinguiam instantaneamente. As pernas e a cor. Ele pensou em uma solução para o problema das pernas.

Em certa noite, o menino mulato se decidiu, e invadiu o casarão dos seus senhores. Mesmo com uma perna só, ele era muito ágil e furtivo, e não foi de grande dificuldade chegar ao quarto se seu irmão. Ele também tinha um profundo conhecimento de ervas, herdado do seu convívio com a parteira, e com a ajuda de uma mistura de plantas, conseguiu enviar o menino branco a um sono profundo. Naquele mesmo quarto, com um facão roubado das plantações, fez sua experiência. Amputou a perna de seu irmão para que os dois fossem assim ainda mais parecidos. Naquele momento, percebeu que algo estava errado. Não via aquilo como uma violência, pois sabia que quanto mais parecidos ficassem, mais felizes seriam, para no fim serem a mesma pessoa. Mas sabia que se deixasse o menino branco sangrando, ele morreria. Pegou o pano branco de sua cabeça e tentou estancar o sangue farto. Não conseguiu nem um pouco. Porém, ao ver a perna do ser que tanto amava, e que amaria ainda mais, por ser ele próprio, teve uma idéia, e um desejo, que suplantou todo o seu medo de que ele morresse. Deu uma mordida forte na carne dura da perna inerte. Era delicioso. Mais do que isso, era inebriante. Comeu mais. E mais. E mais. Percebeu naquela hora que mesmo que fosse idêntico ao seu irmão, ainda estaria preso a sua versão patética de escravo, sem o amor de toda a família. De seu pai. Mas se comesse da carne e do sangue de seu irmão, tinha certeza que se tornaria branco, e perfeito, e notado. Comeu mais. Seria finalmente inteiramente o filho de alguém. E resolveu dar um presente para sua família. Cortou a outra perna do cadáver e fatiou pedaços generosos da carne deliciosa. Misturou com o porco fatiado que estava na cozinha. Pegou de volta o seu pano branco, que agora estava vermelho e pôs de volta na cabeça. Voltou para sua senzala, pela última vez, e dormiu, pois no dia seguinte seria branco, e sua vida começaria de verdade.

                No dia seguinte, ninguém entrou no quarto pois acharam que o menino branco estava dormindo. No almoço, o pai percebeu o gosto estranho da carne e entrou desesperado no quarto do filho. Ao ver seu filho destrocado, sua ira invadiu todos os seus músculos. Pegou sua pistola, e foi em direção ao assassino, que tinha certeza de quem era. O mulato estava ainda na senzala esperando que seu pai viesse e levasse seu novo filho para dentro de casa. O senhor de escravos entrou no lugar e apontou a arma para a cabeça do moleque. E o mulato percebeu tarde demais, que mesmo comendo parte de seu irmão, não se tornaria branco. Pois nunca seriam da mesma cor.

                O pai atirou. O mulato conseguiu se esquivar com sua agilidade incrível e a bala errou. Ele começou a correr desatinadamente para fora da senzala enquanto o pai recarregava a arma. O mulato foi perseguido a tiros até o grande casarão. Os empregados e escravos fugiam desesperados ao ouvir os estrondos dos disparos. No meio da perseguição, o senhor atirava em alguns escravos menos ágeis, por pura fúria. Se não fosse pela agilidade nata do garoto, ele nunca conseguiria sustentar aquela fuga. Em um desses tiros, ele acertou o tanque do automóvel que ficava estacionado na porta do casarão, causando uma explosão que espalhou chamas para todos os lados. Quando os dois entraram correndo na mansão, o lugar já estava sendo destruído pelo fogo. O menino subiu até o quarto do seu irmão, que abrigava o seu corpo mutilado. Estava sem saída. O pai chegou, ofegante. Apontou a arma para a cabeça de seu filho. Momento antes de atirar, uma tora acertou em cheio sua cabeça. Mas o tiro saiu, e acertou a barriga do garoto. Ele caiu ao lado de seu irmão, e assistiu às chamas engolirem seu senhor. Primeiro foram os cabelos e bigodes grisalhos que foram se desfazendo em cinzas esparsas. Depois foi a pele líquida borbulhando como um ovo frito. Ele então finalmente viu. A pele branca, que de tão clara, deixava o sangue azul das veias aparecerem, tornava-se tão escura quanto carvão, tão negra quanto os escravos. O menino mulato gargalhou alto. Eram, enfim, iguais.

                Dizem que o moleque conseguiu fugir antes que a mansão, e todos os empregados e escravos lentos demais para escapar, se desfizessem em chamas. Naquele dia, metade das plantações de tabaco queimou com o enorme incêndio que se espalhou, e o garoto nunca mais foi visto nas redondezas. Dizem que ele anda pelo mundo pulando em uma perna só, com seu gorro vermelho, tentando encontrar alguém que o aceite na família. Por isso, se acontecer alguma coisa estranha com você, pode ser ele fazendo travessuras para chamar a atenção.

                Um dia eu o vi na floresta, pitando um longo cachimbo. Dizem que assim ele se lembra do cheiro do tabaco queimando e daquele dia maravilhoso. Aquele dia em que todos ficaram da mesma cor.


Portas do Inferno

3.

Quando pude enxergar de novo, estava na última sala do corredor. Não estava mais presa a cadeira, porém, e estava sozinha.

Meu coração batia forte e rápido, martelando em meu peito. Minha respiração estava ofegante.

 Não.

Eu não podia ter passado por aquilo de novo. Não podia ter enfrentado meu vicio de novo.

Não!

Eu tinha que estar me recuperando, mas tudo que o que eles faziam aqui era deixar pior.

Meus olhos estavam arregalados. Meus punhos apertados.

Eu não podia me render ao vicio de novo. Não podia me render ao meu instinto, à minha psicose, à minha loucura.

Quando eu encontrei meu gato morto, entrei em um estado de choque. Nada fazia sentido. Eu invadi os outros apartamentos e capturei todo e qualquer animal de estimação que eu encontrei. Se eu não podia ter o meu gato, então ninguém podia ter seus bichinhos.

Matei todos. Degolei-os, assim como haviam degolado meu gato. Drenei o sangue deles e enchi a minha banheira. Quando os policiais chegaram, eu estava na banheira, imersa em sangue, de olhos fechados, cantarolando suavemente. O chão do banheiro estava cheiro de corpo de cachorros, gatos, periquitos, hamsters, porquinhos da índia e vários outros animaizinhos, incluindo alguns peixes e uma iguana.

Quando eu voltei a mim e percebi o que tinha feito, sabia que tinha alguma coisa muito errada comigo. E sabia que eu teria que ficar o mais longe de sangue possível.

Constatei que eu sempre fora fascinada pelo líquido vital. Eu sempre gostara daqueles filmes violentos, sempre que alguém se machucava no parquinho eu era a primeira a me prontificar a ajudar. Todos achavam que eu queria ser médica quando crescer, mas eu só queria ver o sangue.

Ao chegar na Clinica de Recuperação Lugar Melhor, achei que iria sim melhorar, mas logo na primeira noite eles me levaram até a última sala do corredor. Lá, a dra. Mors colou eletrodos na minha testa e braços, me deu uma injeção, e eu entrei no meu pior pesadelo. Revivi a situação da banheira, como eu queria todo aquele sangue me envolvendo, a satisfação de tê-lo em contato com a minha pele.

Quando voltei a mim, estava obcecada por sangue. Era tudo o que eu conseguia pensar. Fazia as pessoas se machucarem, provocava acidentes pequenos, só para ter o prazer de ver o líquido vermelho brotando da pele.

Eu não estava muito lúcida, e fui percebendo isso conforme o efeito do tratamento ia passando. Eu percebia o quão louca eu estava ficando e que a culpa era toda deles. Eu podia até ter a loucura dentro de mim, mas sabia que se eu me mantesse longe dos estímulos, podia ficar estável.

Mas toda vez que eu começo a ficar um pouco melhor, tenho alucinações. Vejo sangue por todo o lado e entro em pânico por que não quero vê-lo. Não quero senti-lo, ou cheira-lo, quero ficar longe.

O tratamento dura bastante em mim. Estou no Portas do Inferno há dois meses e meus únicos estímulos tinham sido aquele a primeira semana e um no começo desse mês. E agora esse.

Percebo, agora, que o sangue na minha mão naquela tarde não era sangue de verdade. Era uma alucinação. Era o desespero batendo por que eu sabia que estava recobrando minha consciência. E eu a queria.

Quando o tratamento começa a caducar, eles nos levam de volta a última sala do corredor. Eles chamas a dra. Mors. E ela nos deixa loucos de novo. Quanto mais estímulos o louco recebe, mais resistente ele se torna, e ele precisa de cada vez mais de estímulos mais fortes.

É por isso que a Emi está sempre excitada e nunca melhora. Ela é uma regular na última sala do corredor.

Por que eles fazem isso? Não tenho ideia. Deve ser uma dessas experiências malucas mesmo, que os psiquiatras são famosos por fazer. Querem sempre descobrir como o cérebro funciona e como a loucura age. Sempre acabam usando pessoas que precisam de ajuda no processo.

Eu estava em pânico quando saí do meu terceiro estímulo. Estava em pânico por que sabia que surtaria logo. Sabia que a minha obsessão por sangue logo voltaria com força total. Não tinha certeza até onde eu iria e até quando eu conseguiria me controlar. Meu maior medo era fazer de novo o que eu fizera com os animais de estimação dos meus vizinhos.

Tentei manter as mãos paradas, mas eu tremia involuntariamente. Meu cérebro estava ficando confuso e minha visão embaçada. Eu tinha que tentar me manter consciente dessa vez.

Cambaleei até a porta e girei a maçaneta. Estava destrancada. Era o jeito da dra. Mors dizer “terminamos por hoje. Está autorizada a ser louca de novo”. Por um instante considerei me trancar lá dentro. Não adiantaria quando a loucura chegasse, mas pelo menos atrasaria. Então me lembro do estímulo, como eu esmurrei a porta até arrombá-la para chegar ao meu doce, quente sangue.

Saí da sala e caminhei silenciosamente pelo corredor vazio. Era meio da noite e o enfermeiro de plantou estava tirando um cochilo em sua cadeira perto do janelão ao lado da última sala do corredor. As portas dos quartos estavam fechadas. Não ouvia nada alem dos suaves roncos do enfermeiro.

Cheguei até a porta da minha cela. Emi estava na cama dela, dormindo seu sono agitado de sempre, os lençóis macios enrolados nas pernas.

Uma coisa chama minha atenção. No tornozelo esquerdo da minha colega está um pequeno corte vermelho. O sangue já está seco, mas o corte é recente. Deve ter acontecido logo depois de eu ter sido levada para a última sala do corredor.

Meu coração acelera. Sinto meu próprio sangue correndo em alta velocidade em minhas veias. Sei que minhas pupilas dilataram.

É onde eu estou agora. Olhando para o tornozelo da minha colega de quarto, talvez minha única amiga, com um deseja fortíssimo de ver mais daquele belíssimo líquido vermelho.

Eu sei que estou perdendo a luta contra a loucura. Sei que vou acabar me entregando a qualquer momento. Mas eu preciso lutar. Não quero machucar Emi. Não quero machucar ninguém.

Fecho as mãos em punhos e me forço a ir até a minha cama. Sento-me, sentindo meu corpo todo tremer ao querer agir sozinho, tentando adormecer meu cérebro para que possa fazer logo o que quer, o que precisa.

Minha respiração fica ofegante. Meus olhos estão pregados na linha vermelha no tornozelo de Emi. Quer ver mais daquele sangue, quero senti-lo, quero tê-lo todo derramado na cela, tingindo todo o branco e bege das paredes, móveis e lençóis com a minha cor favorita.

Finalmente consigo desviar o olhar de Emi. Mas meus olhos caem no criado-mudo. Em cima dele, há uma navalha, como aquelas que os homens usavam para se barbear antes de usaram gilete e barbeadores elétricos.

A dra. Mors, é tudo o que eu consigo pensar antes do meu cérebro se desligar. Meu corpo age por conta própria. Minha mão pega a navalha e a testa para ver se está afiada. Está.

Um sorriso se forma em meu rosto. Volto os olhos para o corpo agitado de Emi na cama. Levanto-me. Com a lâmina preparada, avanço para ela.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Portas do Inferno

2.

Tentei manter a respiração estável. Pisquei algumas vezes, meus olhos se acostumando com a falta de claridade repentina. Meu corpo não estava mais preso à cadeira. Eu não estava mais na última sala do corredor.

 Eu não conseguia ver nada ao meu redor, era uma escuridão total. Mas eu não precisava ver. Eu não precisava da visão onde eu estava, por que o cheiro forte, metálico, tão conhecido e tão saudoso me guiava onde eu precisava ir.
Eu sentia me corpo se mexer, mas eu não estava pensando em mexê-lo. Você já teve aquela sensação que o seu corpo às vezes se move por instinto? Ações que acontecem involuntariamente, como respirar ou o bater do coração, você não diz a si mesmo “então, agora eu preciso inspirar e agora eu preciso expirar”. Não, seu corpo sabe fazer isso sozinho por que é isso que ele foi programado para fazer. Se o seu corpo para de fazer essa ação, você não pode mais viver.

Meu corpo foi programado para fazer outras coisas também. Coisas que não deveriam ser feitas, por ninguém. Ele foi programado na última sala do corredor, na primeira semana em que cheguei ao Portas do Inferno. Antes disso, meu corpo só respirava e bombeava sangue e fazia digestão. Agora ele faz coisas ruins. A pior parte, é que eu aprendi a gostar dessas coisas ruins.

Enquanto caminhava em direção ao cheiro, minha cabeça começava a ficar embaralhada. Eu nunca consigo pensar racionalmente quando estou nesse estado, quando esse cheiro tão convidativo me invade me inebria completamente.

Quando estou totalmente consciente, sei que o que está acontecendo é doentio. É por isso que eu os culpo, é por isso que eu sei que os loucos aqui são eles. São eles que fazem isso comigo. Foram eles que me transformaram nisso, seja lá o que isso for.

Passo por uma porta e continuo caminhando, tentando manter a cabeça no lugar, mas é difícil. Eu sei o que vai acontecer e quero evitar, mas não consigo. Meu corpo não coopera e minha mente se distancia cada vez mais. De novo vou acabar fazendo o que eles querem.

Vou te contar a verdade sobre esse lugar. Vou fazer isso por que é importante que as pessoas saibam o que se passa aqui. Se todos souberem, quem sabe alguém não vem nos ajudar? Quem sabe alguém não vem nos salvar?

O cheiro estava mais forte agora. Meu corpo podia sentir que estava perto. Uma excitação percorreu minha coluna, pelo simples fato de saber que logo estaria ao meu alcance.

Sempre que me vejo nesse estado, lembro da razão pela qual eu fui internada. Isso me desagrada, mas na época eu achei que ir para um hospício na verdade me ajudaria. Eu pedi que me mandassem para cá por que achei que eu seria curada. Achei que assim que estivesse bem, eu poderia voltar para casa. Mas nunca vou voltar para casa. Nunca vou melhorar. Por que eles não querem que eu melhore, querem me manter aqui para sempre, para continuar a fazer essas experiências malucas.

Que experiências, você diz? Bom, o tratamento que eu estava passando na última sala do corredor, por exemplo. Não é um tratamento de verdade, não me ajuda em nada, só me deixa pior.

Isso por que leva a nós, os loucos, aos nossos instintos mais básicos. Cada um de nós tem um vício, uma ação primitiva que está adormecida e só precisa de um estimulo para ser trazida à superfície.

E é isso que eles fazem aqui. Deixam-nos sentir o gostinho do nosso vício, para depois tira-lo abruptamente e nos deixar morrendo de vontade. É aí que a loucura entra. Muitos de nós não conseguem controlar seus instintos, os instintos que eles programaram para estarem a flor da pele.

Normalmente, o primeiro estímulo acontece antes de virmos para o hospício. Um trauma, uma revelação forte, morte na família, qualquer emoção forte ou traumática pode desencadear um surto psicótico. Isso é, se você tem isso dentro de você. Algumas pessoas entram em depressão. Nós, os loucos, acabamos fazendo alguma coisa que a sociedade não vê com bons olhos.

Meu primeiro estímulo foi a morte do meu gato. Eu encontrei seu corpo degolado e murcho no tapete de entrada do meu apartamento. Havia um frasco de sangue ao lado e um bilhete dizendo “A curiosidade matou o gato”.

Nunca descobri quem fez aquilo, mas não me impediu de me vingar. Até hoje não sei exatamente de quem estava me vingando. Das pessoas do prédio, talvez. Elas nunca foram muito corteses comigo ou com meu gatinho.

O que eu fiz em seguida foi o que causou minha internação. Já ouviu alguém dizer que só viu vermelho quando estava com raiva? Bom, eu literalmente só vi vermelho.

Não estava consciente. Era meu instinto básico. Meu corpo se movia sozinho, meu cérebro não funcionava. Só quando acabou eu descobri o que tinha feito. E fiquei apavorada.

Os vizinhos chamaram a polícia. Eu contei a eles minha versão e eles logo concordaram que eu precisava de orientação psiquiátrica. Meus pais estavam chocados. Concordaram em pagar a melhor instituição de recuperação do país, e foi assim que eu acabei no Hospício Portas do Inferno.

A dra. Mors ficou bastante interessada em mim quando eu cheguei. Ela disse que eu era especial. Achei que significasse que eu tinha mais chances de me curar. Depois da primeira noite, percebi o que ela queria dizer.

Mas voltando ao tratamento, eu estava inebriada com aquele cheiro. Completamente perdida nele. Era tão convidativo. Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim...

Mais uma vez, se eu estivesse consciente, estaria em pânico.

Continuei seguindo as cegas. Não sabia onde estava nem onde ia, não podia ver ou ouvir nada, só sentia o cheiro e a excitação da perspectiva de chegar até ele.

Cheguei a uma porta. O que eu queria estava atrás dela. Queria não, precisava. Quando você se deixa levar por um instinto como esse, se torna uma necessidade. É por isso que é tão incontrolável.

Girei a maçaneta, mas estava trancada. De repente o obstáculo me deixou confusa e frustrada. Estava me impedindo de chegar até onde eu precisava. Bati na porta com força, mas ela não se abalou.

Aquela proximidade estava me enlouquecendo. Mias ainda. Eu quase podia senti-lo. Precisava passar por aquela porta.

Comecei a socar a madeira. Soquei-a tanto que se estivesse pensando direito teria percebido o quanto minhas mãos doíam e latejavam. Chutei algumas vezes, até que o trinco começou a ceder.

Novamente fui invadida por aquela animação. O cheiro me deixou com água na boca, como sempre faz.

Mais alguns chutes e finalmente a porta se escancarou. Lá dentro não estava totalmente escuro. Havia uma pequena luminária pendurada no teto, lançando um fraco feixe de luz sobre uma banheira de porcelana. Dentro dela, eu podia ver. Além do cheiro, agora eu podia ver o meu vício, ali, enchendo a banheira, reluzindo intensamente sob a luz fraca.

Vermelho. Forte. Brilhante. Sangue.

Inalei o perfume metálico. Aproximei-me da banheira com passos incertos, extasiada demais para acreditar que era verdade. Ajoelhei-me no piso frio e apoiei as mãos na borda, olhando encantada a tonalidade.

Estiquei a mão, ansiosa, e baixei-a no líquido reluzente. Soltei um suspiro. Era tão incrível ao toque, tão suave, quente, reconfortante. Passei a mão pelo sangue, sentindo-me tão bem que poderia ficar ali para sempre.

Ouvi um barulho forte atrás de mim. Olhei alarmada para a porta que eu arrombara, mas ela não existia mais. Agora havia só uma parede. De repente a luz de apagou. Eu não sentia mais o liquido viscoso na minha mão. Não sentia mais o cheiro do sangue.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Portas do Inferno

1.

Eu estava sentada na cama da minha cela – ou como eles dizem, quarto – olhando para as minhas mãos. Elas estavam sujas e por mais que eu lavasse a sujeira não saia. Era um líquido vermelho, viscoso, e lembrava muito sangue. Mas não podia ser sangue, eu não via sangue havia dias, não tinha como eu estar suja de sangue.

Minha colega de cela Emily entrou batendo a porta na parede com força. Ela estava esfregando a mão na virilha. Provavelmente estava tendo um episódio, como eles chamam os dias em que nós temos recaídas.

Eu não tinha um episódio há semanas, mas Emi tem quase todos os dias. Ela é o que é popularmente conhecido como maníaco sexual. Isso não quer dizer que ela é viciada em sexo, mas que ela está excitada o tempo todo e acha que qualquer um e qualquer coisa pode ser um parceiro sexual.

Eu observei-a ofegar e se jogar na cama defronte a minha, esfregando com mais força o V entre suas pernas.

Voltei o olhar para as minhas mãos. O líquido parecia mais uma luva vermelha escura envolvendo meus dedos e o começo da palma. Não pingava, não escorria, só ficava lá.

- Por que é que a gente não pode ir ao jardim hoje? – a voz rouca de Emi invadiu meus ouvidos.

Eu levantei a cabeça, olhando para sua figura esguia na cama. Emi é o tipo de garota que todos os caras querem. Ela é alta, magra, tem seios grandes e adora dar, mas tem preferências estranhas na cama. Não sei quais são, eu nunca perguntei.

- Por que está frio. – respondi. Será que era por isso que o líquido estranho não escorria quando eu movia minhas mãos? Por que estava congelado?

- Nem está tão frio assim. – Emi reclamou, e passou a se remexer na cama, procurando uma posição confortável.

Eu fiquei em silêncio, ainda ocupada com a sujeira nas mãos. Emi começou a fazer barulhos com a boca, gemidos abafados, provavelmente por que tinha enfiado a mão nas calças e estava se tocando.

Eu já estou acostumada com aquilo, portanto ignorei. Meu dever, como sua colega de cela, é impedi-la. Uma das terapias da Emi é a abstinência, como com qualquer outra droga. Mas por que eu iria impedi-la de sentir o prazer que ela tanto deseja, quando eu mesma estou louca para sucumbir ao meu vício?

Eu ainda estava perdida em pensamentos quando a porta se abriu novamente, dessa vez de forma suave, dando passagem a um dos enfermeiros. Ele é alto e magro e tem a pele negra. Estava segurando uma bandeja com alguns copinhos plásticos, como sempre a essa hora do dia.

Emi logo se pôs sentada, colocando aquela expressão inocente que nunca engana os médicos. Todo mundo sabe que era só ela estar sem supervisão que começa a se esfregar.

- Muito bem senhoritas, hora dos remédios. – exclamou o enfermeiro em tom falsamente animado.

- Temos mesmo que tomar essas balinhas, Frank? – Emi fez voz de criança e com certeza estava fazendo um biquinho pidão. Frank é um dos estagiários que tem uma queda pela minha colega. Todos eles sabem que ficar sem sexo faz parte do tratamento dela, mas Emi sabe bem como levar as pessoas a fazer o que ela quer. E os estagiários sempre acham muito excitante fazer algo proibido quanto transar com uma louca viciada em sexo.

- Sim, Emily, vocês tem que tomar tudinho. – respondeu o enfermeiro, como se estivesse de fato falando com uma criança. Ele andou até mim, depois de ter dado os copinhos com remédios e água para Emi – O que houve? – ele perguntou para mim.

Eu apenas levantei as mãos, mostrando toda aquela sujeira. Quem sabe ele não teria algum produto que pudesse limpa-las?

Frank não disse nada por um instante. Eu só ouvia o cantarolar baixinho de Emi enquanto ela brincava com os copinhos de plástico.

- O quê? – o enfermeiro insistiu.

Eu olhei para ele. Ele estava sem expressão, mas seus olhos cor de chocolate observavam meu rosto com curiosidade.

- Estão sujas. – eu disse, balançando as mãos na frente do rosto dele. O líquido não se moveu.

Frank pegou as e inspecionou. Depois me lançou um olhar estranho.

- Não tem nada de errado com suas mãos. – disse ele lentamente, usando aquele tom que eu conheço bem. Eles usam esse tom quando querem convencer os loucos de que estão fazendo ou dizendo alguma loucura.

- Claro que tem! – exclamei, ignorando o tom, e balancei mais uma vez as mãos na frente dele – Elas estão sujas de sangue!

- Não, elas não estão. – Frank continuou com o tom tranqüilizador. Apesar de sua voz estar estável, eu podia ver em seus olhos que ele estava um pouco assustado. Os estagiários têm tendência a ficarem assustados sempre que um louco faz qualquer movimento brusco. Eles não podem nos machucar, então ficam sem ação.

Eu tenho essa fama de aterrorizar os estagiários de propósito. Não temos muito com o que nos divertir aqui, então eu peguei essa mania de gesticular e lançar olhares mortais a qualquer estagiário que se aproxime. Eles devem saber a razão de eu estar aqui, e deve ser muito ruim, por que sempre se apavoram.

- Não há sangue nenhum nas suas mãos. – repetiu Frank, dando um passo de segurança para trás.

Eu olhei dos meus dedos, que estavam sim envolvidos no líquido vermelho, para o enfermeiro, que me lançava um olhar cauteloso, para Emi, que ainda cantarolava e brincava com o copo de plástico rasgado, nos ignorando completamente.

Oras, aquele enfermeiro estava tentando me confundir. Odeio esses estagiários, que acham que sabem tudo mas na verdade não têm a menor ideia do que estão fazendo. Eles vivem fazendo a gente parecer maluco. “Com quem você está falando?”, “Sua comida parece ótima”, “As tomadas não estão tentando te eletrocutar”, “Esses remédios vão fazer você melhorar”... Eles sempre falam essas besteiras.

- Você é cego? – meu tom de voz estava mais alto e mais uma vez eu balancei as mãos, meu olhos pregados nelas – Mas é claro que há!

O cantarolar de Emi começava a aumentar de volume. Eu me levantei, irritada com Frank por ser tão cabeça dura. Essa é uma das conspirações desse lugar, os médicos e enfermeiros sempre contrariam os loucos, para fazer com que eles pareçam mais loucos e tomem mais remédios, para ficarem mais drogados e mais dóceis e nunca sairem daqui.

- Por que você faz isso comigo!? – gritei com Frank – Esse sangue todo! – eu andei até ele e passei minhas mãos pela frente da camisa branca do uniforme dele, tentando limpar o líquido – Ele não sai da minha mão! E não é meu!

O enfermeiro parecia apavorado agora. Ele tinha os olhos arregalados e estava completamente imóvel, como se qualquer movimento pudesse fazer com que eu o atacasse. A bandeja com os meus copinhos, um de água e um com os meus remédios, estava caída e esquecida no chão.

Eu devia ter previsto o que viria a seguir. É o que sempre acontece. Não comigo, eu nunca tinha chegado a esse ponto. Mas a minha gritaria e a cantoria de Emi tinham chamado a atenção dos outros enfermeiros, e logo dois deles estavam me puxando para longe de Frank, que respirou fundo, trêmulo.

Eu me debati, brava com Frank e com todos os outros.

- Por que vocês fazem isso!? – gritei, desesperada, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas – Todos você, ficam fazendo a gente parecer louco, mas vocês é que são loucos! – eu tentava desesperadamente me soltar do aperto firme deles.

Olhei para Emi em busca de ajuda. Ela havia parado de cantarolar e estava sentada, observando tudo com um olhar vidrado. Ela mordia o lábio inferior com força. Eu conheço essa expressão, já vi muitas vezes. Toda aquela ação a estava excitado. Ela não sabia direito o que estava acontecendo, só sabia que de repente havia alguma coisa nova e diferente, vários corpos de mexendo, se misturando e se esfregando na sua frente.

Eu continuei a chutar e a tentar me libertar. Eles me puxaram para fora da cela, para o corredor. Vários outros loucos estavam fora das celas também, curiosos para saber qual de nós estava sendo injustiçado por eles dessa vez.

Aqui não tem diferença de sexos, os loucos vivem todos misturados pelos andares. Só não são permitidos sexos diferentes no mesmo quarto, mas todos podiam se relacionar nas áreas comuns. Então minha platéia era constituída tanto de loucos quanto loucas, de diversas idades, tamanhos, formas, cores. Aqui todos os loucos são iguais.

Eu não tinha força o suficiente para me soltar ou para machucar meus captores, então não era necessário me sedar, como normalmente fariam. Eles me levaram até o final do corredor, espantando qualquer louco que estivesse no caminho.

Ninguém veio me ajudar, apesar de todos nós concordarmos que toda vez que isso acontecia, os culpados eram eles. Nós sabemos que não devemos interferir, senão acabamos indo junto. Até os loucos têm limites de solidariedade entre si.

Eles me colocaram em uma sala acolchoada, a prova de som, a última do corredor. Lá dentro tudo é branco, tão branco que a minha vista doeu só de olhar. Há uma cadeira reclinável, como a de um dentista, mas com tiras de couro e correntes, no centro, e uma mesa cheia de fios e botões ao lado.

Eles me sentaram na cadeira e prenderam as tiras de couro, com dificuldade já que eu não parava de me debater e gritar, ao redor dos meus pulsos e dos meus tornozelos. Passaram um cinto de couro na minha cintura para me impedir de me mover completamente, e depois saíram, me deixando sozinha, gritando para as paredes acolchoadas e a prova de som.

Não sei quanto tempo passou, mas minha garganta começou a doer de tanto gritar. Meus pulsos e tornozelos estavam ficando em carne viva de tanto esfregar a pele contra o couro que me mantia presa. Minhas mãos costumavam sujas de sangue, e o sangue continuava sem escorrer.

A porta automática se abriu, revelando uma mulher alta e elegante, com um jaleco branco sobre um vestido branco e sapatos de salto brancos. Seu cabelo muito escuro, com corte chanel, contrasta com a pele muito clara, que contrasta com o batom muito vermelho. Quando ela me vê, sorri de modo que seus caninos se projetem para frente, como uma vampira. A psiquiatra chefe do Hospício Portas do Inferno, a doutora Alexa Mors.

Eles sempre chamam a dra. Mors quando alguém faz escândalo. Sempre levam o louco para a última sala do corredor quando isso acontece.

Todo mundo passa pela última sala do corredor na primeira semana de internação. É como uma iniciação. Eles dizem que é para a dra. Mors nos conhecer e entender nossos problemas, por que ela quer nos ajudar. Mas eu sei melhor. Eu já estive naquela sala duas vezes. Eu sei o que se passa lá.
  
A dra. Mors andou ao meu redor algumas vezes, me analisando, cantarolando uma musiquinha animada. Ela começou a mexer na mesa cheia de fios e botões logo ao lado da cadeira. Eu me debati um pouco mais, pânico subindo pelo meu corpo e explodindo na minha garganta. Eu gritei. A médica apenas sorriu docemente para mim.

Ela apertou alguns botões e a mesa começou a fazer um zumbido que foi aumentando de volume até ficar ensurdecedor. Fechei os olhos com força e tentei desesperadamente soltar minhas mãos para que eu pudesse cobrir os ouvidos.

A mulher veio até mim com uma seringa. Eu continuei a me debater, mas isso não a impediu de enfiar a agulha no meu braço. Eu não senti a picada ou o efeito do que quer que estivesse na seringa, assim como eu já sabia que não sentiria. O efeito era tardio.

A psiquiatra colou alguns eletrodos na minha testa e nos meus braços. Por mais que eu tentasse fazer com que eles descolassem da minha pele, parecia que eles estavam se mantendo firmes a base de queimaduras. Eu continuei gritando.

- Fique calma, vai dar tudo certo. – a voz suave da dra. Mors surgiu de algum lugar. Eu não conseguia identificar de onde, nem conseguia ver qualquer coisa. Minha visão tinha ficado totalmente branca, tão clara que minha cabeça latejou.

E eu sabia que o tratamento tinha começado.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Portas do Inferno

Prólogo

Eles chamam de clínica de recuperação. Eu chamo de hospício. Eles chamam aqueles que lá moram de pacientes. Eu os chamo de loucos. Eles dizem que os pacientes têm um problema. Eu digo que os loucos têm uma doença.

Sei disso por que sou uma das pessoas que eles chamam de pacientes, e eu vivo aqui, na Clinica de Recuperação Lugar Melhor. Isso é como eles chamam. Eu chamo de Hospício Portas do Inferno.

Eles são os médicos e enfermeiros. Eu digo que eles são ainda mais malucos do que os loucos que estão presos – hem hem, se recuperando - aqui, por que tem que ser muito pirado mesmo para trabalhar em um lugar como o Portas do Inferno.

Novamente, sei disso por que vivo aqui.

Não me pergunte por que eu estou aqui. Eu não me lembro. Só sei que eu não era louca antes de vir para cá. Agora, a história é outra.