quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Portas do Inferno

1.

Eu estava sentada na cama da minha cela – ou como eles dizem, quarto – olhando para as minhas mãos. Elas estavam sujas e por mais que eu lavasse a sujeira não saia. Era um líquido vermelho, viscoso, e lembrava muito sangue. Mas não podia ser sangue, eu não via sangue havia dias, não tinha como eu estar suja de sangue.

Minha colega de cela Emily entrou batendo a porta na parede com força. Ela estava esfregando a mão na virilha. Provavelmente estava tendo um episódio, como eles chamam os dias em que nós temos recaídas.

Eu não tinha um episódio há semanas, mas Emi tem quase todos os dias. Ela é o que é popularmente conhecido como maníaco sexual. Isso não quer dizer que ela é viciada em sexo, mas que ela está excitada o tempo todo e acha que qualquer um e qualquer coisa pode ser um parceiro sexual.

Eu observei-a ofegar e se jogar na cama defronte a minha, esfregando com mais força o V entre suas pernas.

Voltei o olhar para as minhas mãos. O líquido parecia mais uma luva vermelha escura envolvendo meus dedos e o começo da palma. Não pingava, não escorria, só ficava lá.

- Por que é que a gente não pode ir ao jardim hoje? – a voz rouca de Emi invadiu meus ouvidos.

Eu levantei a cabeça, olhando para sua figura esguia na cama. Emi é o tipo de garota que todos os caras querem. Ela é alta, magra, tem seios grandes e adora dar, mas tem preferências estranhas na cama. Não sei quais são, eu nunca perguntei.

- Por que está frio. – respondi. Será que era por isso que o líquido estranho não escorria quando eu movia minhas mãos? Por que estava congelado?

- Nem está tão frio assim. – Emi reclamou, e passou a se remexer na cama, procurando uma posição confortável.

Eu fiquei em silêncio, ainda ocupada com a sujeira nas mãos. Emi começou a fazer barulhos com a boca, gemidos abafados, provavelmente por que tinha enfiado a mão nas calças e estava se tocando.

Eu já estou acostumada com aquilo, portanto ignorei. Meu dever, como sua colega de cela, é impedi-la. Uma das terapias da Emi é a abstinência, como com qualquer outra droga. Mas por que eu iria impedi-la de sentir o prazer que ela tanto deseja, quando eu mesma estou louca para sucumbir ao meu vício?

Eu ainda estava perdida em pensamentos quando a porta se abriu novamente, dessa vez de forma suave, dando passagem a um dos enfermeiros. Ele é alto e magro e tem a pele negra. Estava segurando uma bandeja com alguns copinhos plásticos, como sempre a essa hora do dia.

Emi logo se pôs sentada, colocando aquela expressão inocente que nunca engana os médicos. Todo mundo sabe que era só ela estar sem supervisão que começa a se esfregar.

- Muito bem senhoritas, hora dos remédios. – exclamou o enfermeiro em tom falsamente animado.

- Temos mesmo que tomar essas balinhas, Frank? – Emi fez voz de criança e com certeza estava fazendo um biquinho pidão. Frank é um dos estagiários que tem uma queda pela minha colega. Todos eles sabem que ficar sem sexo faz parte do tratamento dela, mas Emi sabe bem como levar as pessoas a fazer o que ela quer. E os estagiários sempre acham muito excitante fazer algo proibido quanto transar com uma louca viciada em sexo.

- Sim, Emily, vocês tem que tomar tudinho. – respondeu o enfermeiro, como se estivesse de fato falando com uma criança. Ele andou até mim, depois de ter dado os copinhos com remédios e água para Emi – O que houve? – ele perguntou para mim.

Eu apenas levantei as mãos, mostrando toda aquela sujeira. Quem sabe ele não teria algum produto que pudesse limpa-las?

Frank não disse nada por um instante. Eu só ouvia o cantarolar baixinho de Emi enquanto ela brincava com os copinhos de plástico.

- O quê? – o enfermeiro insistiu.

Eu olhei para ele. Ele estava sem expressão, mas seus olhos cor de chocolate observavam meu rosto com curiosidade.

- Estão sujas. – eu disse, balançando as mãos na frente do rosto dele. O líquido não se moveu.

Frank pegou as e inspecionou. Depois me lançou um olhar estranho.

- Não tem nada de errado com suas mãos. – disse ele lentamente, usando aquele tom que eu conheço bem. Eles usam esse tom quando querem convencer os loucos de que estão fazendo ou dizendo alguma loucura.

- Claro que tem! – exclamei, ignorando o tom, e balancei mais uma vez as mãos na frente dele – Elas estão sujas de sangue!

- Não, elas não estão. – Frank continuou com o tom tranqüilizador. Apesar de sua voz estar estável, eu podia ver em seus olhos que ele estava um pouco assustado. Os estagiários têm tendência a ficarem assustados sempre que um louco faz qualquer movimento brusco. Eles não podem nos machucar, então ficam sem ação.

Eu tenho essa fama de aterrorizar os estagiários de propósito. Não temos muito com o que nos divertir aqui, então eu peguei essa mania de gesticular e lançar olhares mortais a qualquer estagiário que se aproxime. Eles devem saber a razão de eu estar aqui, e deve ser muito ruim, por que sempre se apavoram.

- Não há sangue nenhum nas suas mãos. – repetiu Frank, dando um passo de segurança para trás.

Eu olhei dos meus dedos, que estavam sim envolvidos no líquido vermelho, para o enfermeiro, que me lançava um olhar cauteloso, para Emi, que ainda cantarolava e brincava com o copo de plástico rasgado, nos ignorando completamente.

Oras, aquele enfermeiro estava tentando me confundir. Odeio esses estagiários, que acham que sabem tudo mas na verdade não têm a menor ideia do que estão fazendo. Eles vivem fazendo a gente parecer maluco. “Com quem você está falando?”, “Sua comida parece ótima”, “As tomadas não estão tentando te eletrocutar”, “Esses remédios vão fazer você melhorar”... Eles sempre falam essas besteiras.

- Você é cego? – meu tom de voz estava mais alto e mais uma vez eu balancei as mãos, meu olhos pregados nelas – Mas é claro que há!

O cantarolar de Emi começava a aumentar de volume. Eu me levantei, irritada com Frank por ser tão cabeça dura. Essa é uma das conspirações desse lugar, os médicos e enfermeiros sempre contrariam os loucos, para fazer com que eles pareçam mais loucos e tomem mais remédios, para ficarem mais drogados e mais dóceis e nunca sairem daqui.

- Por que você faz isso comigo!? – gritei com Frank – Esse sangue todo! – eu andei até ele e passei minhas mãos pela frente da camisa branca do uniforme dele, tentando limpar o líquido – Ele não sai da minha mão! E não é meu!

O enfermeiro parecia apavorado agora. Ele tinha os olhos arregalados e estava completamente imóvel, como se qualquer movimento pudesse fazer com que eu o atacasse. A bandeja com os meus copinhos, um de água e um com os meus remédios, estava caída e esquecida no chão.

Eu devia ter previsto o que viria a seguir. É o que sempre acontece. Não comigo, eu nunca tinha chegado a esse ponto. Mas a minha gritaria e a cantoria de Emi tinham chamado a atenção dos outros enfermeiros, e logo dois deles estavam me puxando para longe de Frank, que respirou fundo, trêmulo.

Eu me debati, brava com Frank e com todos os outros.

- Por que vocês fazem isso!? – gritei, desesperada, sentindo meus olhos se encherem de lágrimas – Todos você, ficam fazendo a gente parecer louco, mas vocês é que são loucos! – eu tentava desesperadamente me soltar do aperto firme deles.

Olhei para Emi em busca de ajuda. Ela havia parado de cantarolar e estava sentada, observando tudo com um olhar vidrado. Ela mordia o lábio inferior com força. Eu conheço essa expressão, já vi muitas vezes. Toda aquela ação a estava excitado. Ela não sabia direito o que estava acontecendo, só sabia que de repente havia alguma coisa nova e diferente, vários corpos de mexendo, se misturando e se esfregando na sua frente.

Eu continuei a chutar e a tentar me libertar. Eles me puxaram para fora da cela, para o corredor. Vários outros loucos estavam fora das celas também, curiosos para saber qual de nós estava sendo injustiçado por eles dessa vez.

Aqui não tem diferença de sexos, os loucos vivem todos misturados pelos andares. Só não são permitidos sexos diferentes no mesmo quarto, mas todos podiam se relacionar nas áreas comuns. Então minha platéia era constituída tanto de loucos quanto loucas, de diversas idades, tamanhos, formas, cores. Aqui todos os loucos são iguais.

Eu não tinha força o suficiente para me soltar ou para machucar meus captores, então não era necessário me sedar, como normalmente fariam. Eles me levaram até o final do corredor, espantando qualquer louco que estivesse no caminho.

Ninguém veio me ajudar, apesar de todos nós concordarmos que toda vez que isso acontecia, os culpados eram eles. Nós sabemos que não devemos interferir, senão acabamos indo junto. Até os loucos têm limites de solidariedade entre si.

Eles me colocaram em uma sala acolchoada, a prova de som, a última do corredor. Lá dentro tudo é branco, tão branco que a minha vista doeu só de olhar. Há uma cadeira reclinável, como a de um dentista, mas com tiras de couro e correntes, no centro, e uma mesa cheia de fios e botões ao lado.

Eles me sentaram na cadeira e prenderam as tiras de couro, com dificuldade já que eu não parava de me debater e gritar, ao redor dos meus pulsos e dos meus tornozelos. Passaram um cinto de couro na minha cintura para me impedir de me mover completamente, e depois saíram, me deixando sozinha, gritando para as paredes acolchoadas e a prova de som.

Não sei quanto tempo passou, mas minha garganta começou a doer de tanto gritar. Meus pulsos e tornozelos estavam ficando em carne viva de tanto esfregar a pele contra o couro que me mantia presa. Minhas mãos costumavam sujas de sangue, e o sangue continuava sem escorrer.

A porta automática se abriu, revelando uma mulher alta e elegante, com um jaleco branco sobre um vestido branco e sapatos de salto brancos. Seu cabelo muito escuro, com corte chanel, contrasta com a pele muito clara, que contrasta com o batom muito vermelho. Quando ela me vê, sorri de modo que seus caninos se projetem para frente, como uma vampira. A psiquiatra chefe do Hospício Portas do Inferno, a doutora Alexa Mors.

Eles sempre chamam a dra. Mors quando alguém faz escândalo. Sempre levam o louco para a última sala do corredor quando isso acontece.

Todo mundo passa pela última sala do corredor na primeira semana de internação. É como uma iniciação. Eles dizem que é para a dra. Mors nos conhecer e entender nossos problemas, por que ela quer nos ajudar. Mas eu sei melhor. Eu já estive naquela sala duas vezes. Eu sei o que se passa lá.
  
A dra. Mors andou ao meu redor algumas vezes, me analisando, cantarolando uma musiquinha animada. Ela começou a mexer na mesa cheia de fios e botões logo ao lado da cadeira. Eu me debati um pouco mais, pânico subindo pelo meu corpo e explodindo na minha garganta. Eu gritei. A médica apenas sorriu docemente para mim.

Ela apertou alguns botões e a mesa começou a fazer um zumbido que foi aumentando de volume até ficar ensurdecedor. Fechei os olhos com força e tentei desesperadamente soltar minhas mãos para que eu pudesse cobrir os ouvidos.

A mulher veio até mim com uma seringa. Eu continuei a me debater, mas isso não a impediu de enfiar a agulha no meu braço. Eu não senti a picada ou o efeito do que quer que estivesse na seringa, assim como eu já sabia que não sentiria. O efeito era tardio.

A psiquiatra colou alguns eletrodos na minha testa e nos meus braços. Por mais que eu tentasse fazer com que eles descolassem da minha pele, parecia que eles estavam se mantendo firmes a base de queimaduras. Eu continuei gritando.

- Fique calma, vai dar tudo certo. – a voz suave da dra. Mors surgiu de algum lugar. Eu não conseguia identificar de onde, nem conseguia ver qualquer coisa. Minha visão tinha ficado totalmente branca, tão clara que minha cabeça latejou.

E eu sabia que o tratamento tinha começado.

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