2.
Tentei manter a respiração estável. Pisquei algumas vezes, meus olhos se acostumando com a falta de claridade repentina. Meu corpo não estava mais preso à cadeira. Eu não estava mais na última sala do corredor.
Eu não conseguia ver nada ao meu redor, era uma escuridão total. Mas eu não precisava ver. Eu não precisava da visão onde eu estava, por que o cheiro forte, metálico, tão conhecido e tão saudoso me guiava onde eu precisava ir.
Eu sentia me corpo se mexer, mas eu não estava pensando em mexê-lo. Você já teve aquela sensação que o seu corpo às vezes se move por instinto? Ações que acontecem involuntariamente, como respirar ou o bater do coração, você não diz a si mesmo “então, agora eu preciso inspirar e agora eu preciso expirar”. Não, seu corpo sabe fazer isso sozinho por que é isso que ele foi programado para fazer. Se o seu corpo para de fazer essa ação, você não pode mais viver.
Meu corpo foi programado para fazer outras coisas também. Coisas que não deveriam ser feitas, por ninguém. Ele foi programado na última sala do corredor, na primeira semana em que cheguei ao Portas do Inferno. Antes disso, meu corpo só respirava e bombeava sangue e fazia digestão. Agora ele faz coisas ruins. A pior parte, é que eu aprendi a gostar dessas coisas ruins.
Enquanto caminhava em direção ao cheiro, minha cabeça começava a ficar embaralhada. Eu nunca consigo pensar racionalmente quando estou nesse estado, quando esse cheiro tão convidativo me invade me inebria completamente.
Quando estou totalmente consciente, sei que o que está acontecendo é doentio. É por isso que eu os culpo, é por isso que eu sei que os loucos aqui são eles. São eles que fazem isso comigo. Foram eles que me transformaram nisso, seja lá o que isso for.
Passo por uma porta e continuo caminhando, tentando manter a cabeça no lugar, mas é difícil. Eu sei o que vai acontecer e quero evitar, mas não consigo. Meu corpo não coopera e minha mente se distancia cada vez mais. De novo vou acabar fazendo o que eles querem.
Vou te contar a verdade sobre esse lugar. Vou fazer isso por que é importante que as pessoas saibam o que se passa aqui. Se todos souberem, quem sabe alguém não vem nos ajudar? Quem sabe alguém não vem nos salvar?
O cheiro estava mais forte agora. Meu corpo podia sentir que estava perto. Uma excitação percorreu minha coluna, pelo simples fato de saber que logo estaria ao meu alcance.
Sempre que me vejo nesse estado, lembro da razão pela qual eu fui internada. Isso me desagrada, mas na época eu achei que ir para um hospício na verdade me ajudaria. Eu pedi que me mandassem para cá por que achei que eu seria curada. Achei que assim que estivesse bem, eu poderia voltar para casa. Mas nunca vou voltar para casa. Nunca vou melhorar. Por que eles não querem que eu melhore, querem me manter aqui para sempre, para continuar a fazer essas experiências malucas.
Que experiências, você diz? Bom, o tratamento que eu estava passando na última sala do corredor, por exemplo. Não é um tratamento de verdade, não me ajuda em nada, só me deixa pior.
Isso por que leva a nós, os loucos, aos nossos instintos mais básicos. Cada um de nós tem um vício, uma ação primitiva que está adormecida e só precisa de um estimulo para ser trazida à superfície.
E é isso que eles fazem aqui. Deixam-nos sentir o gostinho do nosso vício, para depois tira-lo abruptamente e nos deixar morrendo de vontade. É aí que a loucura entra. Muitos de nós não conseguem controlar seus instintos, os instintos que eles programaram para estarem a flor da pele.
Normalmente, o primeiro estímulo acontece antes de virmos para o hospício. Um trauma, uma revelação forte, morte na família, qualquer emoção forte ou traumática pode desencadear um surto psicótico. Isso é, se você tem isso dentro de você. Algumas pessoas entram em depressão. Nós , os loucos, acabamos fazendo alguma coisa que a sociedade não vê com bons olhos.
Meu primeiro estímulo foi a morte do meu gato. Eu encontrei seu corpo degolado e murcho no tapete de entrada do meu apartamento. Havia um frasco de sangue ao lado e um bilhete dizendo “A curiosidade matou o gato”.
Nunca descobri quem fez aquilo, mas não me impediu de me vingar. Até hoje não sei exatamente de quem estava me vingando. Das pessoas do prédio, talvez. Elas nunca foram muito corteses comigo ou com meu gatinho.
O que eu fiz em seguida foi o que causou minha internação. Já ouviu alguém dizer que só viu vermelho quando estava com raiva? Bom, eu literalmente só vi vermelho.
Não estava consciente. Era meu instinto básico. Meu corpo se movia sozinho, meu cérebro não funcionava. Só quando acabou eu descobri o que tinha feito. E fiquei apavorada.
Os vizinhos chamaram a polícia. Eu contei a eles minha versão e eles logo concordaram que eu precisava de orientação psiquiátrica. Meus pais estavam chocados. Concordaram em pagar a melhor instituição de recuperação do país, e foi assim que eu acabei no Hospício Portas do Inferno.
A dra. Mors ficou bastante interessada em mim quando eu cheguei. Ela disse que eu era especial. Achei que significasse que eu tinha mais chances de me curar. Depois da primeira noite, percebi o que ela queria dizer.
Mas voltando ao tratamento, eu estava inebriada com aquele cheiro. Completamente perdida nele. Era tão convidativo. Fazia tanto tempo que eu não me sentia assim...
Mais uma vez, se eu estivesse consciente, estaria em pânico.
Continuei seguindo as cegas. Não sabia onde estava nem onde ia, não podia ver ou ouvir nada, só sentia o cheiro e a excitação da perspectiva de chegar até ele.
Cheguei a uma porta. O que eu queria estava atrás dela. Queria não, precisava. Quando você se deixa levar por um instinto como esse, se torna uma necessidade. É por isso que é tão incontrolável.
Girei a maçaneta, mas estava trancada. De repente o obstáculo me deixou confusa e frustrada. Estava me impedindo de chegar até onde eu precisava. Bati na porta com força, mas ela não se abalou.
Aquela proximidade estava me enlouquecendo. Mias ainda. Eu quase podia senti-lo. Precisava passar por aquela porta.
Comecei a socar a madeira. Soquei-a tanto que se estivesse pensando direito teria percebido o quanto minhas mãos doíam e latejavam. Chutei algumas vezes, até que o trinco começou a ceder.
Novamente fui invadida por aquela animação. O cheiro me deixou com água na boca, como sempre faz.
Mais alguns chutes e finalmente a porta se escancarou. Lá dentro não estava totalmente escuro. Havia uma pequena luminária pendurada no teto, lançando um fraco feixe de luz sobre uma banheira de porcelana. Dentro dela, eu podia ver. Além do cheiro, agora eu podia ver o meu vício, ali, enchendo a banheira, reluzindo intensamente sob a luz fraca.
Vermelho. Forte. Brilhante. Sangue.
Inalei o perfume metálico. Aproximei-me da banheira com passos incertos, extasiada demais para acreditar que era verdade. Ajoelhei-me no piso frio e apoiei as mãos na borda, olhando encantada a tonalidade.
Estiquei a mão, ansiosa, e baixei-a no líquido reluzente. Soltei um suspiro. Era tão incrível ao toque, tão suave, quente, reconfortante. Passei a mão pelo sangue, sentindo-me tão bem que poderia ficar ali para sempre.
Ouvi um barulho forte atrás de mim. Olhei alarmada para a porta que eu arrombara, mas ela não existia mais. Agora havia só uma parede. De repente a luz de apagou. Eu não sentia mais o liquido viscoso na minha mão. Não sentia mais o cheiro do sangue.
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