3.
Quando pude enxergar de novo, estava na última sala do corredor. Não estava mais presa a cadeira, porém, e estava sozinha.
Meu coração batia forte e rápido, martelando em meu peito. Minha respiração estava ofegante.
Não.
Eu não podia ter passado por aquilo de novo. Não podia ter enfrentado meu vicio de novo.
Não!
Eu tinha que estar me recuperando, mas tudo que o que eles faziam aqui era deixar pior.
Meus olhos estavam arregalados. Meus punhos apertados.
Eu não podia me render ao vicio de novo. Não podia me render ao meu instinto, à minha psicose, à minha loucura.
Quando eu encontrei meu gato morto, entrei em um estado de choque. Nada fazia sentido. Eu invadi os outros apartamentos e capturei todo e qualquer animal de estimação que eu encontrei. Se eu não podia ter o meu gato, então ninguém podia ter seus bichinhos.
Matei todos. Degolei-os, assim como haviam degolado meu gato. Drenei o sangue deles e enchi a minha banheira. Quando os policiais chegaram, eu estava na banheira, imersa em sangue, de olhos fechados, cantarolando suavemente. O chão do banheiro estava cheiro de corpo de cachorros, gatos, periquitos, hamsters, porquinhos da índia e vários outros animaizinhos, incluindo alguns peixes e uma iguana.
Quando eu voltei a mim e percebi o que tinha feito, sabia que tinha alguma coisa muito errada comigo. E sabia que eu teria que ficar o mais longe de sangue possível.
Constatei que eu sempre fora fascinada pelo líquido vital. Eu sempre gostara daqueles filmes violentos, sempre que alguém se machucava no parquinho eu era a primeira a me prontificar a ajudar. Todos achavam que eu queria ser médica quando crescer, mas eu só queria ver o sangue.
Ao chegar na Clinica de Recuperação Lugar Melhor, achei que iria sim melhorar, mas logo na primeira noite eles me levaram até a última sala do corredor. Lá, a dra. Mors colou eletrodos na minha testa e braços, me deu uma injeção, e eu entrei no meu pior pesadelo. Revivi a situação da banheira, como eu queria todo aquele sangue me envolvendo, a satisfação de tê-lo em contato com a minha pele.
Quando voltei a mim, estava obcecada por sangue. Era tudo o que eu conseguia pensar. Fazia as pessoas se machucarem, provocava acidentes pequenos, só para ter o prazer de ver o líquido vermelho brotando da pele.
Eu não estava muito lúcida, e fui percebendo isso conforme o efeito do tratamento ia passando. Eu percebia o quão louca eu estava ficando e que a culpa era toda deles. Eu podia até ter a loucura dentro de mim, mas sabia que se eu me mantesse longe dos estímulos, podia ficar estável.
Mas toda vez que eu começo a ficar um pouco melhor, tenho alucinações. Vejo sangue por todo o lado e entro em pânico por que não quero vê-lo. Não quero senti-lo, ou cheira-lo, quero ficar longe.
O tratamento dura bastante em mim. Estou no Portas do Inferno há dois meses e meus únicos estímulos tinham sido aquele a primeira semana e um no começo desse mês. E agora esse.
Percebo, agora, que o sangue na minha mão naquela tarde não era sangue de verdade. Era uma alucinação. Era o desespero batendo por que eu sabia que estava recobrando minha consciência. E eu a queria.
Quando o tratamento começa a caducar, eles nos levam de volta a última sala do corredor. Eles chamas a dra. Mors. E ela nos deixa loucos de novo. Quanto mais estímulos o louco recebe, mais resistente ele se torna, e ele precisa de cada vez mais de estímulos mais fortes.
É por isso que a Emi está sempre excitada e nunca melhora. Ela é uma regular na última sala do corredor.
Por que eles fazem isso? Não tenho ideia. Deve ser uma dessas experiências malucas mesmo, que os psiquiatras são famosos por fazer. Querem sempre descobrir como o cérebro funciona e como a loucura age. Sempre acabam usando pessoas que precisam de ajuda no processo.
Eu estava em pânico quando saí do meu terceiro estímulo. Estava em pânico por que sabia que surtaria logo. Sabia que a minha obsessão por sangue logo voltaria com força total. Não tinha certeza até onde eu iria e até quando eu conseguiria me controlar. Meu maior medo era fazer de novo o que eu fizera com os animais de estimação dos meus vizinhos.
Tentei manter as mãos paradas, mas eu tremia involuntariamente. Meu cérebro estava ficando confuso e minha visão embaçada. Eu tinha que tentar me manter consciente dessa vez.
Cambaleei até a porta e girei a maçaneta. Estava destrancada. Era o jeito da dra. Mors dizer “terminamos por hoje. Está autorizada a ser louca de novo”. Por um instante considerei me trancar lá dentro. Não adiantaria quando a loucura chegasse, mas pelo menos atrasaria. Então me lembro do estímulo, como eu esmurrei a porta até arrombá-la para chegar ao meu doce, quente sangue.
Saí da sala e caminhei silenciosamente pelo corredor vazio. Era meio da noite e o enfermeiro de plantou estava tirando um cochilo em sua cadeira perto do janelão ao lado da última sala do corredor. As portas dos quartos estavam fechadas. Não ouvia nada alem dos suaves roncos do enfermeiro.
Cheguei até a porta da minha cela. Emi estava na cama dela, dormindo seu sono agitado de sempre, os lençóis macios enrolados nas pernas.
Uma coisa chama minha atenção. No tornozelo esquerdo da minha colega está um pequeno corte vermelho. O sangue já está seco, mas o corte é recente. Deve ter acontecido logo depois de eu ter sido levada para a última sala do corredor.
Meu coração acelera. Sinto meu próprio sangue correndo em alta velocidade em minhas veias. Sei que minhas pupilas dilataram.
É onde eu estou agora. Olhando para o tornozelo da minha colega de quarto, talvez minha única amiga, com um deseja fortíssimo de ver mais daquele belíssimo líquido vermelho.
Eu sei que estou perdendo a luta contra a loucura. Sei que vou acabar me entregando a qualquer momento. Mas eu preciso lutar. Não quero machucar Emi. Não quero machucar ninguém.
Fecho as mãos em punhos e me forço a ir até a minha cama. Sento-me, sentindo meu corpo todo tremer ao querer agir sozinho, tentando adormecer meu cérebro para que possa fazer logo o que quer, o que precisa.
Minha respiração fica ofegante. Meus olhos estão pregados na linha vermelha no tornozelo de Emi. Quer ver mais daquele sangue, quero senti-lo, quero tê-lo todo derramado na cela, tingindo todo o branco e bege das paredes, móveis e lençóis com a minha cor favorita.
Finalmente consigo desviar o olhar de Emi. Mas meus olhos caem no criado-mudo. Em cima dele, há uma navalha, como aquelas que os homens usavam para se barbear antes de usaram gilete e barbeadores elétricos.
A dra. Mors, é tudo o que eu consigo pensar antes do meu cérebro se desligar. Meu corpo age por conta própria. Minha mão pega a navalha e a testa para ver se está afiada. Está.
Um sorriso se forma em meu rosto. Volto os olhos para o corpo agitado de Emi na cama. Levanto-me. Com a lâmina preparada, avanço para ela.
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