Há vários
anos, no Brasil, existia uma rica família cujo patriarca era um senhor de
escravos dos mais poderosos. Naquela época, a abolição da escravatura já era um
plano possível e palpável, apoiado pela Inglaterra, que detinha grandes interesses
na mão-de-obra remunerada. Porém, este plano ia de encontro aos interesses dos
próprios senhores de escravos, mesmo que ancorado por questões éticas. O
patriarca, daquela era família, que era dono de uma vasta plantação de tabaco, era
uma exceção. Apesar de ser um dos mais influentes coronéis, engajava-se na
questão dos maus tratos aos negros, e fazia de tudo para preservar, ao limite
do possível, a dignidade dos mesmos.
Certo dia, sua
esposa, que, mesmo não sendo muito bonita era muito mais jovem que ele, engravidou.
Com o espalhamento da notícia, a festa no casarão da família tornou-se uma das comemorações
mais suntuosas dos anos passados, equivalendo-se aos grandes bailes europeus
daquela época. Até os escravos foram contagiados por aquela aura de alegria que
invadira todas as terras próximas. E enquanto, de dia, a alta burguesia rezava
para os mais variados santos para garantir a saúde da criança e da mãe, os
escravos, de noite, faziam suas mais confiáveis cerimônias afro-brasileiras
para desejar a mesma saúde.
Meses depois,
a parteira da família, uma escrava tão idosa e tão prezada pela família, que ao
invés de trabalhar, só recebia cuidados dos seus senhores, preparava-se para
tirar a criança da barriga da frágil mãe. Todos, sem exceção, confiavam
inteiramente nas mãos daquela senhora quando se tratava de partos. Até os
intelectuais mais estudados, que conheciam as avançadas técnicas de medicina da
Europa, não deixavam de reconhecer o poder daquela mulher, que nunca deixou
nenhuma criança ou mãe morrer. Ninguém entendia para quais deuses ou entidades
ela faziam suas preces, mas todos de alguma forma acreditavam que aquilo funcionava.
E naquela noite não foi diferente. Dois saudáveis meninos nasceram da pequena
mulher. Gêmeos.
Quando o
primeiro nasceu, foi recebido com gritinhos de alívio e choros soluçantes
entusiasmados dos espectadores que ali estavam, e uma gargalhada espontânea de
pura alegria do recém-pai. Porém, quando o segundo nasceu, foi recebido por
gritinhos de pavor e por pela interrupção dos choros para uma expressão de
susto, e talvez nojo. O pai de felicidade foi para surpresa, e depois para
desespero, e depois para ira. A parteira estava atônita, e murmurou algo incompreensível
para seus deuses. O segundo menino era mulato.
Algumas famílias
das redondezas riam imaginando o adultério da mulher do poderosíssimo senhor de
escravos com algum escravo qualquer. Outras famílias perguntavam-se que pacto aquelas
pessoas haviam feito com o demônio, ou que pecados haviam cometido para que o
diabo colocasse uma criança negra junto com o filho deles. Os escravos tinham
certeza que era alguma maldição perigosa rogada por algum inimigo da família ou
escravo ressentido. Era impossível nascer gêmeos de cores diferentes, e difícil
de conceber que a cor do pecado se mesclasse ao sangue livre de gente digna.
A partir
daquele dia, o coronel que antes inspirava os direitos humanos universais ao
tratar com dignidade seus escravos, tornava-se mais um impiedoso carrasco, como
todos os outros. Os escravos violaram seu próprio filho, e isso era demais para
ele. Não conseguia imaginar uma sombra idêntica ao seu filho, que iria
atormentar eternamente sua vida. Foi então que decidiu torná-los diferentes, e
quebrar de uma vez a vergonha que seria essa irmandade. Quando o mulato ainda
era um bebê, o senhor de escravos mandou cortar sua perna, para que assim ele
nunca fosse comparado ao seu verdadeiro filho.
E assim foi. O
menino teve sua perna cortada e foi jogado na senzala, para se tornar mais um
escravo. Porém, nem mesmo os escravos aceitavam cuidar daquele menino, que o
viam como a encarnação do caos e da loucura, ou alguma espécie de entidade
brincalhona e igualmente perigosa. O menino só sobreviveu, pois a parteira se
compadeceu, e decidiu criá-lo. Aquele caso, nunca deveria ser contado tanto
para o filho branco como o mulato. Assim, aquela história de profanação seria
esquecida pelo tempo, abafadas pela felicidade de um filho que herdaria milhares
de hectares de plantações de tabaco, e o trabalho sem sentido do menino escravo
que nunca seria ninguém. E o tempo realmente passou, e tudo aquilo foi sendo
esquecido aos poucos enquanto os meninos cresciam, mesmo que as semelhanças físicas
entre os dois à parte da cor gerassem um desconforto generalizado.
Entretanto, em
uma certa ocasião, quando os meninos já estavam saindo da infância, a mãe da
família adoeceu. Fraca como ela sempre foi, tinha certeza que a morte chegava
para agarrá-la em seus braços gelados. Aquela mulher, ao contrário de seu
marido, e contra quase todos, via o menino como seu filho, uma dádiva divina, e
desejava o seu bem assim como desejava a seu filho branco. A permanência e
sobrevivência do menino escravo foram possíveis em grande parte pelas suas ajudas
à parteira, em sua criação. Foi então que, na semana de sua morte, ela reuniu o
seu filho legítimo e, escondido, o menino escravo, e contou-lhes a verdade. A
parteira era totalmente contra, mas era impossível negar esse último desejo a mãe
daqueles meninos. Ela estava certa em estar contra.
A partir
daquele dia, o menino mulato tornou-se a sombra de seu irmão. Não era inveja
pela condição do menino branco, ou frustração por ser escravo. Era algo mais
profundo. O menino mulato não se via como alguém, como uma existência própria.
Ele via-se como um anexo, uma continuação, uma projeção do menino branco. Ele
era portanto, a riqueza, o sucesso, e a felicidade. Não tinha sofrimento, pois
projetava inteiramente sua existência no seu irmão, e bastava igualar-se o
máximo possível a ele para a integração ser perfeita. Aquilo que o pai temia
havia acontecido: o menino mulato tornou-se uma sombra, uma versão indigna sem consistência,
sem sentido, inteiramente dependente, uma eterna assombração. Nos anos que se
seguiram, o menino mulato se igualava cada vez mais a sua contraparte branca:
as vozes tornaram-se idênticas, assim como o jeito de falar, as entonações, as
gírias, o jeito de se mover, as expressões, as personalidades, os idéias, os
sonhos. Nesta época, o mulato passou a usar trapos brancos e inclusive um pano
branco na cabeça para tentar imitar a cor de seu irmão, e a improvisar uma
perna de pau para andar como o irmão. Mas não era suficiente. Ainda havia esses
dois obstáculos que os distinguiam instantaneamente. As pernas e a cor. Ele
pensou em uma solução para o problema das pernas.
Em certa
noite, o menino mulato se decidiu, e invadiu o casarão dos seus senhores. Mesmo
com uma perna só, ele era muito ágil e furtivo, e não foi de grande dificuldade
chegar ao quarto se seu irmão. Ele também tinha um profundo conhecimento de
ervas, herdado do seu convívio com a parteira, e com a ajuda de uma mistura de
plantas, conseguiu enviar o menino branco a um sono profundo. Naquele mesmo
quarto, com um facão roubado das plantações, fez sua experiência. Amputou a
perna de seu irmão para que os dois fossem assim ainda mais parecidos. Naquele
momento, percebeu que algo estava errado. Não via aquilo como uma violência,
pois sabia que quanto mais parecidos ficassem, mais felizes seriam, para no fim
serem a mesma pessoa. Mas sabia que se deixasse o menino branco sangrando, ele
morreria. Pegou o pano branco de sua cabeça e tentou estancar o sangue farto.
Não conseguiu nem um pouco. Porém, ao ver a perna do ser que tanto amava, e que
amaria ainda mais, por ser ele próprio, teve uma idéia, e um desejo, que suplantou
todo o seu medo de que ele morresse. Deu uma mordida forte na carne dura da
perna inerte. Era delicioso. Mais do que isso, era inebriante. Comeu mais. E
mais. E mais. Percebeu naquela hora que mesmo que fosse idêntico ao seu irmão,
ainda estaria preso a sua versão patética de escravo, sem o amor de toda a
família. De seu pai. Mas se comesse da carne e do sangue de seu irmão, tinha
certeza que se tornaria branco, e perfeito, e notado. Comeu mais. Seria
finalmente inteiramente o filho de alguém. E resolveu dar um presente para sua
família. Cortou a outra perna do cadáver e fatiou pedaços generosos da carne
deliciosa. Misturou com o porco fatiado que estava na cozinha. Pegou de volta o
seu pano branco, que agora estava vermelho e pôs de volta na cabeça. Voltou
para sua senzala, pela última vez, e dormiu, pois no dia seguinte seria branco,
e sua vida começaria de verdade.
No
dia seguinte, ninguém entrou no quarto pois acharam que o menino branco estava
dormindo. No almoço, o pai percebeu o gosto estranho da carne e entrou
desesperado no quarto do filho. Ao ver seu filho destrocado, sua ira invadiu
todos os seus músculos. Pegou sua pistola, e foi em direção ao assassino, que
tinha certeza de quem era. O mulato estava ainda na senzala esperando que seu
pai viesse e levasse seu novo filho para dentro de casa. O senhor de escravos
entrou no lugar e apontou a arma para a cabeça do moleque. E o mulato percebeu
tarde demais, que mesmo comendo parte de seu irmão, não se tornaria branco.
Pois nunca seriam da mesma cor.
O
pai atirou. O mulato conseguiu se esquivar com sua agilidade incrível e a bala
errou. Ele começou a correr desatinadamente para fora da senzala enquanto o pai
recarregava a arma. O mulato foi perseguido a tiros até o grande casarão. Os
empregados e escravos fugiam desesperados ao ouvir os estrondos dos disparos. No
meio da perseguição, o senhor atirava em alguns escravos menos ágeis, por pura fúria.
Se não fosse pela agilidade nata do garoto, ele nunca conseguiria sustentar
aquela fuga. Em um desses tiros, ele acertou o tanque do automóvel que ficava estacionado
na porta do casarão, causando uma explosão que espalhou chamas para todos os
lados. Quando os dois entraram correndo na mansão, o lugar já estava sendo destruído
pelo fogo. O menino subiu até o quarto do seu irmão, que abrigava o seu corpo
mutilado. Estava sem saída. O pai chegou, ofegante. Apontou a arma para a cabeça
de seu filho. Momento antes de atirar, uma tora acertou em cheio sua cabeça.
Mas o tiro saiu, e acertou a barriga do garoto. Ele caiu ao lado de seu irmão,
e assistiu às chamas engolirem seu senhor. Primeiro foram os cabelos e bigodes
grisalhos que foram se desfazendo em cinzas esparsas. Depois foi a pele líquida
borbulhando como um ovo frito. Ele então finalmente viu. A pele branca, que de
tão clara, deixava o sangue azul das veias aparecerem, tornava-se tão escura
quanto carvão, tão negra quanto os escravos. O menino mulato gargalhou alto. Eram,
enfim, iguais.
Dizem
que o moleque conseguiu fugir antes que a mansão, e todos os empregados e
escravos lentos demais para escapar, se desfizessem em chamas. Naquele dia, metade
das plantações de tabaco queimou com o enorme incêndio que se espalhou, e o garoto
nunca mais foi visto nas redondezas. Dizem que ele anda pelo mundo pulando em
uma perna só, com seu gorro vermelho, tentando encontrar alguém que o aceite na
família. Por isso, se acontecer alguma coisa estranha com você, pode ser ele
fazendo travessuras para chamar a atenção.
Um
dia eu o vi na floresta, pitando um longo cachimbo. Dizem que assim ele se
lembra do cheiro do tabaco queimando e daquele dia maravilhoso. Aquele dia em
que todos ficaram da mesma cor.
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