quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Cheiro de Tabaco



Há vários anos, no Brasil, existia uma rica família cujo patriarca era um senhor de escravos dos mais poderosos. Naquela época, a abolição da escravatura já era um plano possível e palpável, apoiado pela Inglaterra, que detinha grandes interesses na mão-de-obra remunerada. Porém, este plano ia de encontro aos interesses dos próprios senhores de escravos, mesmo que ancorado por questões éticas. O patriarca, daquela era família, que era dono de uma vasta plantação de tabaco, era uma exceção. Apesar de ser um dos mais influentes coronéis, engajava-se na questão dos maus tratos aos negros, e fazia de tudo para preservar, ao limite do possível, a dignidade dos mesmos.

Certo dia, sua esposa, que, mesmo não sendo muito bonita era muito mais jovem que ele, engravidou. Com o espalhamento da notícia, a festa no casarão da família tornou-se uma das comemorações mais suntuosas dos anos passados, equivalendo-se aos grandes bailes europeus daquela época. Até os escravos foram contagiados por aquela aura de alegria que invadira todas as terras próximas. E enquanto, de dia, a alta burguesia rezava para os mais variados santos para garantir a saúde da criança e da mãe, os escravos, de noite, faziam suas mais confiáveis cerimônias afro-brasileiras para desejar a mesma saúde.

Meses depois, a parteira da família, uma escrava tão idosa e tão prezada pela família, que ao invés de trabalhar, só recebia cuidados dos seus senhores, preparava-se para tirar a criança da barriga da frágil mãe. Todos, sem exceção, confiavam inteiramente nas mãos daquela senhora quando se tratava de partos. Até os intelectuais mais estudados, que conheciam as avançadas técnicas de medicina da Europa, não deixavam de reconhecer o poder daquela mulher, que nunca deixou nenhuma criança ou mãe morrer. Ninguém entendia para quais deuses ou entidades ela faziam suas preces, mas todos de alguma forma acreditavam que aquilo funcionava. E naquela noite não foi diferente. Dois saudáveis meninos nasceram da pequena mulher. Gêmeos.

Quando o primeiro nasceu, foi recebido com gritinhos de alívio e choros soluçantes entusiasmados dos espectadores que ali estavam, e uma gargalhada espontânea de pura alegria do recém-pai. Porém, quando o segundo nasceu, foi recebido por gritinhos de pavor e por pela interrupção dos choros para uma expressão de susto, e talvez nojo. O pai de felicidade foi para surpresa, e depois para desespero, e depois para ira. A parteira estava atônita, e murmurou algo incompreensível para seus deuses. O segundo menino era mulato.

Algumas famílias das redondezas riam imaginando o adultério da mulher do poderosíssimo senhor de escravos com algum escravo qualquer. Outras famílias perguntavam-se que pacto aquelas pessoas haviam feito com o demônio, ou que pecados haviam cometido para que o diabo colocasse uma criança negra junto com o filho deles. Os escravos tinham certeza que era alguma maldição perigosa rogada por algum inimigo da família ou escravo ressentido. Era impossível nascer gêmeos de cores diferentes, e difícil de conceber que a cor do pecado se mesclasse ao sangue livre de gente digna.

A partir daquele dia, o coronel que antes inspirava os direitos humanos universais ao tratar com dignidade seus escravos, tornava-se mais um impiedoso carrasco, como todos os outros. Os escravos violaram seu próprio filho, e isso era demais para ele. Não conseguia imaginar uma sombra idêntica ao seu filho, que iria atormentar eternamente sua vida. Foi então que decidiu torná-los diferentes, e quebrar de uma vez a vergonha que seria essa irmandade. Quando o mulato ainda era um bebê, o senhor de escravos mandou cortar sua perna, para que assim ele nunca fosse comparado ao seu verdadeiro filho.

E assim foi. O menino teve sua perna cortada e foi jogado na senzala, para se tornar mais um escravo. Porém, nem mesmo os escravos aceitavam cuidar daquele menino, que o viam como a encarnação do caos e da loucura, ou alguma espécie de entidade brincalhona e igualmente perigosa. O menino só sobreviveu, pois a parteira se compadeceu, e decidiu criá-lo. Aquele caso, nunca deveria ser contado tanto para o filho branco como o mulato. Assim, aquela história de profanação seria esquecida pelo tempo, abafadas pela felicidade de um filho que herdaria milhares de hectares de plantações de tabaco, e o trabalho sem sentido do menino escravo que nunca seria ninguém. E o tempo realmente passou, e tudo aquilo foi sendo esquecido aos poucos enquanto os meninos cresciam, mesmo que as semelhanças físicas entre os dois à parte da cor gerassem um desconforto generalizado.

Entretanto, em uma certa ocasião, quando os meninos já estavam saindo da infância, a mãe da família adoeceu. Fraca como ela sempre foi, tinha certeza que a morte chegava para agarrá-la em seus braços gelados. Aquela mulher, ao contrário de seu marido, e contra quase todos, via o menino como seu filho, uma dádiva divina, e desejava o seu bem assim como desejava a seu filho branco. A permanência e sobrevivência do menino escravo foram possíveis em grande parte pelas suas ajudas à parteira, em sua criação. Foi então que, na semana de sua morte, ela reuniu o seu filho legítimo e, escondido, o menino escravo, e contou-lhes a verdade. A parteira era totalmente contra, mas era impossível negar esse último desejo a mãe daqueles meninos. Ela estava certa em estar contra.

A partir daquele dia, o menino mulato tornou-se a sombra de seu irmão. Não era inveja pela condição do menino branco, ou frustração por ser escravo. Era algo mais profundo. O menino mulato não se via como alguém, como uma existência própria. Ele via-se como um anexo, uma continuação, uma projeção do menino branco. Ele era portanto, a riqueza, o sucesso, e a felicidade. Não tinha sofrimento, pois projetava inteiramente sua existência no seu irmão, e bastava igualar-se o máximo possível a ele para a integração ser perfeita. Aquilo que o pai temia havia acontecido: o menino mulato tornou-se uma sombra, uma versão indigna sem consistência, sem sentido, inteiramente dependente, uma eterna assombração. Nos anos que se seguiram, o menino mulato se igualava cada vez mais a sua contraparte branca: as vozes tornaram-se idênticas, assim como o jeito de falar, as entonações, as gírias, o jeito de se mover, as expressões, as personalidades, os idéias, os sonhos. Nesta época, o mulato passou a usar trapos brancos e inclusive um pano branco na cabeça para tentar imitar a cor de seu irmão, e a improvisar uma perna de pau para andar como o irmão. Mas não era suficiente. Ainda havia esses dois obstáculos que os distinguiam instantaneamente. As pernas e a cor. Ele pensou em uma solução para o problema das pernas.

Em certa noite, o menino mulato se decidiu, e invadiu o casarão dos seus senhores. Mesmo com uma perna só, ele era muito ágil e furtivo, e não foi de grande dificuldade chegar ao quarto se seu irmão. Ele também tinha um profundo conhecimento de ervas, herdado do seu convívio com a parteira, e com a ajuda de uma mistura de plantas, conseguiu enviar o menino branco a um sono profundo. Naquele mesmo quarto, com um facão roubado das plantações, fez sua experiência. Amputou a perna de seu irmão para que os dois fossem assim ainda mais parecidos. Naquele momento, percebeu que algo estava errado. Não via aquilo como uma violência, pois sabia que quanto mais parecidos ficassem, mais felizes seriam, para no fim serem a mesma pessoa. Mas sabia que se deixasse o menino branco sangrando, ele morreria. Pegou o pano branco de sua cabeça e tentou estancar o sangue farto. Não conseguiu nem um pouco. Porém, ao ver a perna do ser que tanto amava, e que amaria ainda mais, por ser ele próprio, teve uma idéia, e um desejo, que suplantou todo o seu medo de que ele morresse. Deu uma mordida forte na carne dura da perna inerte. Era delicioso. Mais do que isso, era inebriante. Comeu mais. E mais. E mais. Percebeu naquela hora que mesmo que fosse idêntico ao seu irmão, ainda estaria preso a sua versão patética de escravo, sem o amor de toda a família. De seu pai. Mas se comesse da carne e do sangue de seu irmão, tinha certeza que se tornaria branco, e perfeito, e notado. Comeu mais. Seria finalmente inteiramente o filho de alguém. E resolveu dar um presente para sua família. Cortou a outra perna do cadáver e fatiou pedaços generosos da carne deliciosa. Misturou com o porco fatiado que estava na cozinha. Pegou de volta o seu pano branco, que agora estava vermelho e pôs de volta na cabeça. Voltou para sua senzala, pela última vez, e dormiu, pois no dia seguinte seria branco, e sua vida começaria de verdade.

                No dia seguinte, ninguém entrou no quarto pois acharam que o menino branco estava dormindo. No almoço, o pai percebeu o gosto estranho da carne e entrou desesperado no quarto do filho. Ao ver seu filho destrocado, sua ira invadiu todos os seus músculos. Pegou sua pistola, e foi em direção ao assassino, que tinha certeza de quem era. O mulato estava ainda na senzala esperando que seu pai viesse e levasse seu novo filho para dentro de casa. O senhor de escravos entrou no lugar e apontou a arma para a cabeça do moleque. E o mulato percebeu tarde demais, que mesmo comendo parte de seu irmão, não se tornaria branco. Pois nunca seriam da mesma cor.

                O pai atirou. O mulato conseguiu se esquivar com sua agilidade incrível e a bala errou. Ele começou a correr desatinadamente para fora da senzala enquanto o pai recarregava a arma. O mulato foi perseguido a tiros até o grande casarão. Os empregados e escravos fugiam desesperados ao ouvir os estrondos dos disparos. No meio da perseguição, o senhor atirava em alguns escravos menos ágeis, por pura fúria. Se não fosse pela agilidade nata do garoto, ele nunca conseguiria sustentar aquela fuga. Em um desses tiros, ele acertou o tanque do automóvel que ficava estacionado na porta do casarão, causando uma explosão que espalhou chamas para todos os lados. Quando os dois entraram correndo na mansão, o lugar já estava sendo destruído pelo fogo. O menino subiu até o quarto do seu irmão, que abrigava o seu corpo mutilado. Estava sem saída. O pai chegou, ofegante. Apontou a arma para a cabeça de seu filho. Momento antes de atirar, uma tora acertou em cheio sua cabeça. Mas o tiro saiu, e acertou a barriga do garoto. Ele caiu ao lado de seu irmão, e assistiu às chamas engolirem seu senhor. Primeiro foram os cabelos e bigodes grisalhos que foram se desfazendo em cinzas esparsas. Depois foi a pele líquida borbulhando como um ovo frito. Ele então finalmente viu. A pele branca, que de tão clara, deixava o sangue azul das veias aparecerem, tornava-se tão escura quanto carvão, tão negra quanto os escravos. O menino mulato gargalhou alto. Eram, enfim, iguais.

                Dizem que o moleque conseguiu fugir antes que a mansão, e todos os empregados e escravos lentos demais para escapar, se desfizessem em chamas. Naquele dia, metade das plantações de tabaco queimou com o enorme incêndio que se espalhou, e o garoto nunca mais foi visto nas redondezas. Dizem que ele anda pelo mundo pulando em uma perna só, com seu gorro vermelho, tentando encontrar alguém que o aceite na família. Por isso, se acontecer alguma coisa estranha com você, pode ser ele fazendo travessuras para chamar a atenção.

                Um dia eu o vi na floresta, pitando um longo cachimbo. Dizem que assim ele se lembra do cheiro do tabaco queimando e daquele dia maravilhoso. Aquele dia em que todos ficaram da mesma cor.


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