quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Reflexos de uma lua esquecida


1. Porque ela nos iluminava

Ele estava atrasado. Não que tivéssemos marcado algum horário, mas sempre nos encontrávamos neste lugar quando a lua já estava entorpecida pelo breu do céu. Eu escondia minhas mãos geladas embaixo de minhas roupas em uma tentativa de aliviar o tremor. Mas não conseguia. Porque não estava tremendo de frio, e sim de pavor. Era um pavor muito antigo, que crescera nas sombras da minha consciência, recentemente adubado pela felicidade que sentia quando via ele, e o receio de não poder vê-lo mais.

Naquele ponto, já tinha certeza que ele não viria, e aquele sentimento enfim mostrava completamente suas garras e dentes assustadores. Já podia morrer. Nada em minha vida nunca valeu minha existência. Eu era uma mulher feia, burra e antipática. Era o que eles diziam. E eu concordava com eles. Não podia ser mais fracassada. Só que se esqueceram de me perguntar se eu desejava o sucesso. Eu não me importava, sobrevivia como um animal, sem objetivos, sem desejos, sem lamentações. Isso antes de eu encontrar aquele homem.

No momento em que eu o conheci, ele passou a ser minha total existência. E as noites que passamos juntos. Comecei a apreciar a lua, porque ela nos iluminava. Passei a admirar as estrelas, porque às vezes ele falava sobre elas. Passei a gostar da minha vida, porque ele estava nela. Então, agora que ele nunca mais apareceria, já podia morrer. Simples assim. Não que isso me deixasse triste, aquelas últimas noites foram gigantescamente superiores às minhas expectativas sobre minha existência ridícula. Era mais do que suficiente. Se tudo acabasse ali, eu estaria satisfeita.

Mas ele apareceu. Estava vestindo sua máscara negra de ferro escurecido, como em todas as noites. Eu nunca havia visto o seu rosto, e a minha mente fazia o trabalho de imaginar todas as possibilidades possíveis de imagem.

- Oi, tudo bem? – minha voz saiu esganada, ainda afetada pelos vestígios de pavor.

Ele vestia uma roupa totalmente preta, com vários bolsos visíveis e escondidos para seus mais exóticos dispositivos e ferramentas. Era um ladrão. Eu preferia o chamar de gatuno, pois ladrão lembra aqueles moleques sujos que roubam as moedas das velhas e dos idiotas quando estes vão passear pela praça ou pela feira. Mas ele insistia que era tudo a mesma coisa, e eu realmente não me importava com o que quer que fosse que ele roubava. De qualquer forma, ele era um profissional, não porque treinou em alguma escola – se existe alguma escola de ladrões –, mas porque ele era muito bom no que fazia. Ninguém nunca o viu. Exceto eu.

- Tudo e você? – a voz dele é abafada, e misteriosa.

Eu comecei a rir. O nervosismo escorreu inteiramente. E voltou aquela sensação morna de estar ao seu lado. Ele não riu. Mas eu achava que estava sorrindo por detrás da máscara.

- Tudo.

Tive certeza. Ficamos imóveis por alguns segundos, um olhando para o outro. Eu estava me recordando de quando nos conhecemos. Foi puramente por acaso. Era a madrugada posterior ao velório da minha mãe. Eu não amava ninguém, e minha mãe não fora uma exceção. Mas mesmo assim tive que ficar um dia inteiro ao lado de um caixão tentando consolar pessoas que não mereciam ser consoladas, e sendo consolada por pessoas que sabiam que eu não precisava ser consolada. Enfim, foi um dia de exaustão, ao lado de pessoas que eu não gosto, porque odeio pessoas. Resolvi então, de madrugada, quando ninguém mais andava pelas ruas dessa cidadezinha covarde, caminhar ao ar livre e gelado e respirar. Quando passava por uma ruela particularmente mais escura, eu o vi. Até hoje não sei se ele apareceu de propósito para mim, ou se eu o peguei no flagra em mais um de seus roubos noturnos. A cena seguinte assistiu a nós dois estatelados: eu porque estava muito surpresa, e um pouco assustada; e ele talvez porque estivesse refletindo sobre o que fazer com a mulher que poderia denunciá-lo, ou porque estivesse pensando na melhor forma de se aproximar. Não sei quanto tempo se passou, mas ele tomou a iniciativa e soltou um “Oi, tudo bem?”. Eu, sem reação mais original, respondi “Tudo, e você?”. Ele respondeu meio soturno “Tudo”. Nas outras noites, essa introdução que não poderia ser mais deslocada à situação, passou a ser nosso código, que ironicamente indicava que tudo estava bem, e não havia perigos para nosso encontro. Depois disso, ele começou a andar para fora da cidade. Eu o segui, e não poderia ser diferente. Ele não falava nenhuma palavra enquanto andava, e tampouco eu, como se com medo de que qualquer som à parte dos sons da noite o espantasse como a um animal arisco.

Naquela noite eu vi o lago pela primeira vez. Quero dizer, eu já tinha o avistado algumas vezes, quando saía por uma pequena caminhada no bosque dos limites da cidade, mas nunca tinha o visto de verdade. Ele se sentou na margem úmida e olhou para a lua que nadava nas profundezas da água. Alguns poetas delirariam com uma mera visão daquela paisagem, mas eu só conseguia olhar para aquela máscara. Eu me sentei à sua frente. Um vento envolveu a cena e fez a lua submergida se transformar em um borrão de luz na superfície do lago que ondulava. Ele começou a contar uma história. Não consigo me recordar qual era a história, faz muito tempo que isso aconteceu.

Depois disso, passamos a nos encontrar todas as noites. Às vezes contava mais histórias, às vezes declarava poesias, às vezes simplesmente conversávamos como dois velhos amigos que se encontraram por acaso na rua. Nós evitávamos ao máximo falar sobre nossas vidas, eu porque não era nada interessante falar sobre meus fracassos, e ele porque eu nunca poderia saber sua identidade por detrás da máscara. Às vezes me perguntava se ele sabia o quão valiosas eram aquelas noites para mim. Às vezes me perguntava se elas eram valiosas para ele também.

Fomos até o lago. Ele se sentou. A lua estava cheia de novo. Fazia exatamente um mês desde nosso primeiro encontro. Eu também me sentei. Passei a mão na grama molhada.

- Quem é você? – me arrependi imediatamente.

Os sapos diminuíram seu coaxar. E um longo silêncio se passou.

- Não sou ninguém.

Um barulho de algo andando no bosque.

- Me desculpe.

Eu comecei a chorar. Não sei porque. Estava feliz, mas as lágrimas escorriam incessantes.

- Algum problema?

Aquele mesmo vento da primeira noite. Sequei as lágrimas.

- Nenhum. – estava sorrindo – Conte uma história, por favor.

Ele começou a contar a história. Era sobre um homem que se apaixonou pelo reflexo da lua na superfície do lago e se afogou tentando alcançá-lo. Sempre gostava das histórias dele. Menos aquela. Achei um tanto idiota. Eu me sentia idiota. E tudo aquilo parecia bem idiota. Não conhecia paixão, mas agora tinha certeza que estava apaixonada por aquele homem. E se estar apaixonado já é estar idiota, estar apaixonado por alguém que não é ninguém, é ridículo. Mais do que ridículo, era desastroso. Havia caído em uma grande armadilha: estava apaixonada pelo reflexo da lua. Conseguia ver duas alternativas. A primeira era pular no lago e, me afogar enquanto perseguia algo que não existe. A segunda era ficar apodrecendo eternamente enquanto admirava algo que sabia que nunca poderia alcançar. Uma pior que a outra.

- E pensar que se ele simplesmente olhasse para cima, perceberia que a imagem no lago era um mero reflexo, e não morreria por uma ilusão.

Sim, naquele momento eu vi a terceira alternativa. Tirar a máscara. Transformá-lo em alguém. Quebrar a ilusão. Para o bem, ou para o mal. Se para o mal, teria certeza que nunca mais iria poder vê-lo. Se para o bem, teria certeza que nunca mais iria querer vê-lo. De qualquer forma, poria um fim naquilo que já acabou no momento em que me apaixonei. O difícil seria conseguir tirar a máscara dele. Os sapos voltaram a coaxar. Ele me pegou de surpresa.

- Quer que eu tire a máscara?

Eu imediatamente respondi.

- Não.

Nenhum comentário:

Postar um comentário