Estou na minha cama. Não consigo me mover. Na verdade,
talvez até consiga, mas teria que enfrentar uma longa sessão de degustação dos
mais variados tipos de dores nos mais variados tipos de lugares do corpo. E não
tenho nenhum bom motivo para me mover. Não que evitar movimentos me livre da
dor. Estou sentindo muita dor. Estou doente.
O médico me disse o que era, mas eu não entendi muito bem,
assim como quase todo mundo é incapaz de entender o que os médicos falam. Mas
uma coisa entendi. Para me curar o mais rápido possível, eu precisava ficar em
absoluto repouso. Bom, eu avisei que um homem como eu não pode ficar em
absoluto repouso. Ele me alertou do modo tipicamente delicado dos médicos que
se não repousasse agora por alguns dias, daqui a alguns dias iria repousar eternamente
em um caixão. Não tive escolha. Sou um homem muito importante. Ou melhor, era
um homem muito importante.
Já é o terceiro dia que estou totalmente imobilizado. E
nesse tempo de dor perene, pensei muito sobre minha vida. As velhinhas
católicas já diziam: Mente vazia, oficina do diabo. Só esqueciam-se de lembrar
que o diabo vive dentro de nós. O teto branco era o meu espelho e o encontro
comigo mesmo era inevitável. Não estava com nenhum medo específico, mas sim com
aquele receio geral que todos têm de olhar para trás e verificar se todo o seu esforço
te levou para o lugar que sempre sonhou. E foi nesta investigação interna que surgiu a
questão chave: eu era feliz?
Eu sou completo. Deixei os rastros do meu suor e sangue por
todo o caminho da minha vida para chegar onde estou. E estou no lugar que
sempre sonhei, estou no auge. Enquanto milhares se arrastam para sobreviver na
mais desprezível fome, eu vivo na fartura de tudo o que eu desejo. Enquanto
milhares morrerão na penumbra medíocre da inexistência, eu sou lembrado e adorado
por multidões desses mesmos milhares e serei imortal. Enquanto milhares
cultivam abismos de ódio e sofrimento, eu tenho ao meu lado pessoas que eu amo.
Enquanto milhares vivem infectados pela incompletude da ignorância, eu já descobri
o meu sentido de vida e atingi a completude. Enquanto milhares fracassam, eu
tive sucesso. Venci a vida, que eles dizem ser invencível. Mas são os fracos que dizem isso, para justificar sua fraqueza. Eu sou forte. Eu sou um herói.
Eu sou completo. Mas não sou feliz. Não sou feliz porque não
há tal coisa chamada felicidade. Se a felicidade existe, ela instantaneamente
se acaba, e fica no passado. E o passado não existe. Quando temos sucesso,
morremos. Somos a ausência. E a ausência nos move. Minha doença me lembrou de
tudo isso, lembrou que não sou ninguém, e sempre serei ninguém, vulnerável a
qualquer doença. Ela me faz rir de toda a minha existência.
Não consigo respirar direito. Não consigo enxergar direito.
Não consigo pensar direito. Não consigo me mover. Estou com muita dor. Estou à
beira da morte. E nunca me senti tão bem. Tão vivo.
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