terça-feira, 2 de outubro de 2012

A Peste


Estou na minha cama. Não consigo me mover. Na verdade, talvez até consiga, mas teria que enfrentar uma longa sessão de degustação dos mais variados tipos de dores nos mais variados tipos de lugares do corpo. E não tenho nenhum bom motivo para me mover. Não que evitar movimentos me livre da dor. Estou sentindo muita dor. Estou doente.
O médico me disse o que era, mas eu não entendi muito bem, assim como quase todo mundo é incapaz de entender o que os médicos falam. Mas uma coisa entendi. Para me curar o mais rápido possível, eu precisava ficar em absoluto repouso. Bom, eu avisei que um homem como eu não pode ficar em absoluto repouso. Ele me alertou do modo tipicamente delicado dos médicos que se não repousasse agora por alguns dias, daqui a alguns dias iria repousar eternamente em um caixão. Não tive escolha. Sou um homem muito importante. Ou melhor, era um homem muito importante.
Já é o terceiro dia que estou totalmente imobilizado. E nesse tempo de dor perene, pensei muito sobre minha vida. As velhinhas católicas já diziam: Mente vazia, oficina do diabo. Só esqueciam-se de lembrar que o diabo vive dentro de nós. O teto branco era o meu espelho e o encontro comigo mesmo era inevitável. Não estava com nenhum medo específico, mas sim com aquele receio geral que todos têm de olhar para trás e verificar se todo o seu esforço te levou para o lugar que sempre sonhou.  E foi nesta investigação interna que surgiu a questão chave: eu era feliz?
Eu sou completo. Deixei os rastros do meu suor e sangue por todo o caminho da minha vida para chegar onde estou. E estou no lugar que sempre sonhei, estou no auge. Enquanto milhares se arrastam para sobreviver na mais desprezível fome, eu vivo na fartura de tudo o que eu desejo. Enquanto milhares morrerão na penumbra medíocre da inexistência, eu sou lembrado e adorado por multidões desses mesmos milhares e serei imortal. Enquanto milhares cultivam abismos de ódio e sofrimento, eu tenho ao meu lado pessoas que eu amo. Enquanto milhares vivem infectados pela incompletude da ignorância, eu já descobri o meu sentido de vida e atingi a completude. Enquanto milhares fracassam, eu tive sucesso. Venci a vida, que eles dizem ser invencível. Mas são os fracos que dizem isso, para justificar sua fraqueza. Eu sou forte. Eu sou um herói.
Eu sou completo. Mas não sou feliz. Não sou feliz porque não há tal coisa chamada felicidade. Se a felicidade existe, ela instantaneamente se acaba, e fica no passado. E o passado não existe. Quando temos sucesso, morremos. Somos a ausência. E a ausência nos move. Minha doença me lembrou de tudo isso, lembrou que não sou ninguém, e sempre serei ninguém, vulnerável a qualquer doença. Ela me faz rir de toda a minha existência.
Não consigo respirar direito. Não consigo enxergar direito. Não consigo pensar direito. Não consigo me mover. Estou com muita dor. Estou à beira da morte. E nunca me senti tão bem. Tão vivo.

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