segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Pecadora

Não sou uma pessoa ruim, digo para mim mesma enquanto olho-me no espelho embaçado do banheiro do shopping center. Sou só o que o mundo fez de mim. Uma pecadora.

Mas hoje em dia, o que é pecado? Não necessariamente do ponto de vista religioso, mas pelo ponto de vista moral. Por que se formos falar sobre pecado de acordo com o catolicismo, por exemplo, comer presunto no café da manhã da sexta feira santa seria um terrível crime.

Meus pensamentos e ações remetem claramente ao mundo em que vivo, à realidade em que estou inserida. Meus pecados, meus crimes contra a moral, a maioria deles só em pensamento, são marcas de um tempo, de uma geração que deixou um monte de costumes para trás em virtude do conforto e da praticidade.

Pergunto-me, principalmente quando estou lendo um desses livros sobre sociedades distópicas que estão na moda, como eu agiria em uma situação de vida ou morte. Não de vida ou morte quando você é assaltado no ponto de ônibus vazio e tem que entregar seu celular para um cara te apontando uma faca ou uma arma – que depois você se pergunta se era de verdade ou não -, mas uma situação em que se tem a morte imposta a você, seja pela fome, pela doença, pelo governo... Você tem duas escolhas, morrer ou viver, e você é obrigado a se agarrar a qualquer coisa para conseguir continuar com vida.

Reviro os olhos para o meu reflexo, que estava me olhando carrancudo. Nunca iria sobreviver em uma situação difícil como aqueles personagens. Não quando não aguento nem os problemas normais e levianos que eu tenho, como pagar as contas e aturar um chefe sem noção me importunando o dia todo.

Passo a mão pelos cabelos um tanto desgrenhados e me dirijo à porta com a maçaneta torta do banheiro. Meu maior pecado é, na verdade, um que sempre, em qualquer época, sociedade e religião, foi mal visto: se eu enfrentasse uma situação de vida ou morte, eu escolheria a morte com um sorriso nos lábios.

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